Rolar o feed atrás de notícias ruins vira hábito difícil de largar. Veja o que a pesquisa mostra sobre doomscrolling e sofrimento e como sair do ciclo.
Você abre o celular para ver "só uma notícia" e, uma hora depois, continua lendo coisas ruins, com o corpo tenso e a sensação de que precisa saber de tudo. Esse padrão ganhou o nome de doomscrolling. A pesquisa mostra que ele se associa a mais ansiedade, depressão e sofrimento, embora quase todos os estudos sejam de observação. Informar-se continua legítimo: o que pesa é a quantidade, o momento e a perda de controle.
Em resumo: Doomscrolling é a rolagem repetida de conteúdo negativo e ameaçador, com dificuldade de parar. Uma metanálise de 2026 o associou a mais ansiedade, depressão e sofrimento psicológico, mas com certeza muito baixa da evidência e sem provar causa. Experimentos mostram que notícias negativas aumentam angústia e preocupação. Janelas fixas, fontes escolhidas e pausas ajudam a sair do ciclo.
Doomscrolling ou se informar?
Li e Yin (2026) definem doomscrolling como o engajamento persistente ou repetitivo com informação online majoritariamente negativa, ameaçadora ou perturbadora, em geral acompanhado de dificuldade para se desligar. Eles lembram que o conceito se sobrepõe, mas não se confunde, ao uso problemático de redes sociais, à exposição a notícias negativas e ao uso problemático da internet. Na prática, a diferença está na finalidade e no fim:
| Característica | Se informar | Doomscrolling |
|---|---|---|
| Objetivo | Saber o que importa | Aliviar a incerteza sem resolvê-la |
| Término | Tem começo e fim | Sem fim, rolagem contínua |
| Efeito | Compreensão, às vezes ação | Mais angústia, pouca ação |
O que os estudos mostram
- Revisão sistemática (Li e Yin, 2026): com 44 estudos, 21 deles na metanálise principal, o doomscrolling se associou a ansiedade (r = 0,35), depressão (r = 0,35), sofrimento psicológico (r = 0,51), menor bem-estar (r = -0,29) e menor satisfação com a vida (r = -0,25). A certeza era muito baixa em todos os desfechos, a heterogeneidade era alta e quatro dos cinco estudos de sofrimento vieram da Turquia. Os autores afirmam que o conjunto não estabelece causalidade.
- Experimento (Johnston e Davey, 1997): três grupos assistiram a boletins de TV de 14 minutos editados para ter conteúdo positivo, neutro ou negativo. Quem viu o boletim negativo teve aumento de humor ansioso e triste e passou a catastrofizar mais uma preocupação pessoal, mesmo sem relação com o conteúdo das notícias.
- Estudo de campo (Holman e colaboradores, 2014, PNAS): após os atentados da Maratona de Boston, seis ou mais horas diárias de exposição à cobertura na semana seguinte se associaram a mais estresse agudo do que a exposição direta aos atentados, mesmo ajustando para a saúde mental anterior.
- Acompanhamento (Bendau e colaboradores, 2025): em 8.337 adultos na Alemanha, de 2020 a 2022, maior exposição à mídia sobre a pandemia no início se associou a mais ansiedade relacionada à pandemia um mês, um ano e dois anos depois.
Esses estudos não são equivalentes. O experimento sugere causa em curto prazo, mas é antigo, de 14 minutos de TV, e não mede rolagem infinita. Os outros mostram associação em situações de crise coletiva, e quem já é ansioso também pode procurar mais notícias. O conjunto fortalece a hipótese de que exposição repetida a conteúdo negativo piora a angústia, sem permitir cravar o tamanho do efeito.
Por que é tão difícil parar
Algumas explicações são plausíveis, embora nem todas estejam testadas especificamente para o doomscrolling:
- Busca de controle: diante de uma ameaça, ler mais parece uma forma de se preparar, mas a informação repetida raramente resolve a incerteza.
- Atração pelo negativo: conteúdos ameaçadores chamam a atenção com facilidade, e os algoritmos tendem a mostrar o que prende o usuário.
- Desenho dos aplicativos: a Academia Americana de Pediatria (2026) descreve que ambientes digitais voltados a engajamento e lucro incentivam o uso prolongado, que pode ocupar o lugar de sono e movimento.
- Ansiedade prévia: quem já tem tendência a se preocupar tende a checar mais, e isso mantém o ciclo, como discutido em pensamentos intrusivos e ruminação.
Como sair do ciclo
- Defina janelas de notícia: uma ou duas vezes ao dia, por 15 a 20 minutos, fora do primeiro horário da manhã e da hora de dormir. Os números são uma sugestão prática, sem valor validado.
- Escolha o formato: boletins, resumos e matérias fechadas têm fim; feeds infinitos não.
- Silencie alertas de notícias: veja notificações do celular.
- Pergunte se aquilo leva a uma ação: se não leva, a leitura adicional tende a só aumentar a angústia. Se leva, transforme em passo concreto, como apoiar uma causa, conversar ou se preparar.
- Faça uma pausa física: levantar, caminhar ou respirar entre uma leitura e outra ajuda a perceber o estado do corpo.
- Proteja o sono: evite notícias na cama, o que se liga ao tema de celular antes de dormir.
- Converse: falar sobre o que sente com alguém de confiança costuma aliviar mais do que ler mais uma matéria.
Quem precisa acompanhar notícias por obrigação profissional, como jornalistas, profissionais de saúde ou de segurança, pode combinar essas medidas com turnos de exposição, pausas planejadas entre eventos difíceis e espaços para conversar com colegas. Em crises coletivas, como uma tragédia ou uma pandemia, a vontade de ficar conectado aumenta, e justamente por isso vale decidir os limites de antemão, quando a cabeça está mais calma.
Outras estratégias gerais estão em como usar menos o celular.
Quando é sinal de algo maior
Se a leitura de notícias vem com preocupação que não desliga, dificuldade de dormir, tensão no corpo ou sensação de que o mundo é insuportável, vale olhar para ansiedade e para o possível cansaço descrito em cansaço mental. Se houver desesperança ou pensamentos de se machucar, o CVV (188, gratuito, 24 horas) e o SAMU (192) atendem a qualquer momento.
Conclusão
Saber o que acontece no mundo é importante, e o problema começa quando a leitura deixa de informar e passa a ferir sem produzir ação. Se acompanhar notícias virou fonte constante de angústia ou se você não consegue sair do ciclo mesmo querendo, a terapia cognitivo-comportamental pode ajudar a lidar com a preocupação e com a tolerância à incerteza.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
Perguntas frequentes
O que é doomscrolling?
É o hábito de rolar repetidamente conteúdo online majoritariamente negativo, ameaçador ou perturbador, com dificuldade de parar. Difere de se informar porque não tem fim claro, aumenta a angústia e raramente leva a uma ação. Não é diagnóstico psiquiátrico, mas é um padrão de uso que pode piorar ansiedade e humor.
Doomscrolling causa ansiedade e depressão?
Há associação com ansiedade, depressão e sofrimento psicológico em uma metanálise de 2026, mas a certeza da evidência é muito baixa e os estudos não estabelecem causa. Experimentos mais antigos mostram que ver notícias negativas aumenta angústia e preocupação em curto prazo. Quem já está ansioso também pode procurar mais notícias.
Quanto tempo por dia posso acompanhar notícias?
Não há um tempo validado. Uma sugestão prática é concentrar a leitura em uma ou duas janelas por dia, com 15 a 20 minutos cada, longe do horário de dormir, preferindo boletins e resumos a feeds infinitos. O critério mais útil é perceber se o que você lê está informando ou apenas aumentando a angústia.
Como parar de checar notícias o tempo todo?
Reduza gatilhos silenciando alertas de notícias, defina janelas fixas, escolha formatos com começo e fim e pergunte se aquilo leva a uma ação. Faça uma pausa física depois de ler e evite notícias na cama. Se mesmo assim a checagem parecer compulsiva, converse com um profissional de saúde mental.
Quando devo procurar ajuda por causa das notícias?
Quando a preocupação não desliga, o sono piora, há tensão constante no corpo, desânimo ou sensação de que o mundo é insuportável. Nesses casos, pode haver ansiedade ou depressão por trás, e a psicoterapia ajuda. Em caso de desesperança ou pensamentos de se machucar, ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192).
Referências
- PubMed: Doomscrolling, mental health, and psychological well-being in adolescents and adults: a systematic review and meta-analysis (Li e Yin, Frontiers in Psychology, 2026)
- PubMed: The psychological impact of negative TV news bulletins: the catastrophizing of personal worries (Johnston e Davey, British Journal of Psychology, 1997)
- PubMed: Media's role in broadcasting acute stress following the Boston Marathon bombings (Holman e colaboradores, PNAS, 2014)
- PubMed: Viral Transmission? A Longitudinal Study of Media Use and Its Relation to Mental Strain During the First 2 Years of the COVID-19 Pandemic (Bendau e colaboradores, International Journal of Behavioral Medicine, 2025)
- PubMed: Digital Ecosystems, Children, and Adolescents: Policy Statement (Munzer e colaboradores, Pediatrics, 2026)




