Hiperfoco no TDAH: o que É, Por que Acontece e o que a Pesquisa Mostra
Neuropsicologia

Hiperfoco no TDAH: o que É, Por que Acontece e o que a Pesquisa Mostra

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Concentrar-se por horas no que interessa é hiperfoco? Veja o que é, o que a pesquisa diz sobre TDAH e por que ele não confirma nem exclui o quadro.

Você não consegue ler três páginas de um relatório, mas passa seis horas seguidas montando um projeto, jogando ou arrumando um armário, e só percebe que escureceu quando o corpo reclama. Parece contraditório para quem se queixa de desatenção, e muita gente conclui que, se consegue se concentrar assim, não pode ter TDAH. Esse fenômeno tem nome popular, hiperfoco, e a pesquisa ainda está começando a entendê-lo.

Em resumo: hiperfoco é a absorção intensa em uma atividade, a ponto de ignorar o que acontece ao redor. Não é critério diagnóstico do TDAH, mas um estudo com centenas de adultos mostrou que quem tem mais sintomas relata mais episódios dele. Ter hiperfoco não confirma nem exclui o TDAH. O conceito ainda não tem definição única, e a pesquisa é pequena, o que pede cautela com explicações simples.

O que é hiperfoco

Em linhas gerais, é um estado de concentração tão profunda em uma tarefa que a pessoa deixa de notar o tempo, a fome, o sono, as mensagens e as pessoas por perto. Os exemplos mais comuns são jogos, programação, leitura, hobbies, trabalho em um projeto que fascina e até tarefas domésticas escolhidas por impulso. O que o diferencia de uma boa concentração é a dificuldade de sair do estado quando seria preciso: interromper custa, e o resto da vida fica em segundo plano.

Ele lembra o que a psicologia chama de estado de fluxo, em que a pessoa se envolve totalmente numa atividade desafiadora. A diferença, quando se fala em hiperfoco, é o aspecto de perda de controle sobre a mudança de atividade e as consequências que isso traz.

Não existe uma definição única

Uma revisão de Ashinoff e Abu-Akel (2021) chama o hiperfoco de "fronteira esquecida da atenção". Os autores mostram que ele é citado em contextos como o autismo, a esquizofrenia e o TDAH, mas a pesquisa sobre seus efeitos na cognição e no cérebro é limitada. Muitas vezes o termo nem é definido nos estudos, como se todos soubessem do que se trata. Por isso eles propõem uma definição operacional para orientar pesquisas futuras.

Na prática, isso quer dizer que resultados de estudos diferentes nem sempre medem a mesma coisa, e que qualquer afirmação forte sobre o que causa o hiperfoco é prematura. Explicações populares, como a de que seria um "superpoder", não têm respaldo na pesquisa disponível.

O que a pesquisa mostra sobre TDAH

Hupfeld e colaboradores (2019) criaram um questionário próprio, o Adult Hyperfocus Questionnaire, e testaram a hipótese de que o hiperfoco seria mais frequente em quem tem muitos sintomas de TDAH. Primeiro, com um grupo piloto de 251 adultos e, depois, com uma amostra de replicação de 372, com e sem TDAH. Quem tinha mais sintomas, medidos por uma escala conhecida, relatou mais hiperfoco, tanto em escala total quanto na tendência geral, e com mais frequência nos três contextos estudados: escola, hobbies e tempo de tela. Os autores concluíram que o hiperfoco merece ser estudado como uma característica possivelmente separada da síndrome do TDAH.

É um resultado interessante, mas com limites claros. Os dados vêm de um questionário novo, de autorrelato, que ainda precisa de mais validação, e a comparação foi por nível de sintomas, e não por diagnóstico clínico confirmado. O estudo mostra associação, e não explica por que ela existe.

Por que o hiperfoco não confirma nem exclui o TDAH

No TDAH, a atenção costuma ser variável, e não simplesmente curta. Ela tende a oscilar conforme o interesse, a novidade, a recompensa e a estrutura da tarefa. Isso explica por que a mesma pessoa pode se perder em um relatório e se absorver por horas no que gosta. Por isso, conseguir se concentrar no que interessa não exclui o diagnóstico.

O contrário também vale. Muita gente sem TDAH tem períodos de absorção intensa, e o hiperfoco aparece em outras situações, como interesses intensos no autismo (veja autismo em adultos) e uso excessivo de telas e jogos (veja vício em celular). O diagnóstico depende da história desde a infância, do conjunto de sintomas e do prejuízo na vida, como mostra TDAH em adultos, e não de uma característica isolada.

Quando o hiperfoco atrapalha

O problema não é o foco, e sim o que se perde enquanto ele dura. Entre as consequências possíveis estão:

  • compromissos esquecidos ou atrasados, porque o tempo "sumiu";
  • horas de sono e refeições sacrificadas;
  • tarefas importantes adiadas por uma atividade mais atraente, o que se liga à procrastinação, descrita em procrastinação: causas e como parar;
  • conflitos em casa e no trabalho, porque o outro se sente ignorado, tema de TDAH nos relacionamentos;
  • cansaço depois, com dificuldade de voltar a outras demandas.

O que pode ajudar

Há pouca ou nenhuma pesquisa consolidada sobre estratégias específicas para hiperfoco, então as sugestões abaixo são de bom senso, e não protocolo comprovado:

  1. Colocar alarmes que interrompam de fora, já que a percepção de tempo fica alterada durante o hiperfoco. A noção de tempo é tema de TDAH e noção de tempo.
  2. Combinar o ponto de parada antes de começar, por exemplo "até as 18h" ou "até terminar esta etapa".
  3. Colocar as obrigações antes das atividades absorventes quando possível, ou reservar um bloco de tempo curto para o que não pode esperar.
  4. Proteger sono e refeições com horários fixos e lembretes.
  5. Avisar quem convive com você que, nesses momentos, você precisa de um sinal combinado para sair do foco, e pedir que ele seja respeitoso.

Quando buscar ajuda

Procure orientação se o hiperfoco leva a faltas, atrasos recorrentes, perda de sono, uso descontrolado de jogos ou telas, ou conflitos graves. A avaliação de TDAH, quando indicada, envolve o psiquiatra ou o neurologista para o diagnóstico médico e as decisões sobre remédio, e pode incluir a avaliação neuropsicológica, que não é obrigatória, mas descreve o funcionamento da atenção e das funções executivas. Se você tem dificuldade de interromper atividades e organizar o tempo, a terapia cognitivo-comportamental trabalha planejamento e hábitos no dia a dia.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

O que é hiperfoco?

É um estado de absorção tão intenso em uma atividade que a pessoa deixa de perceber o tempo, as necessidades do corpo e o que acontece ao redor. O termo é popular e não tem definição única na pesquisa: uma revisão de 2021 aponta que muitos estudos nem o definem e propõe uma definição operacional para pesquisas futuras.

Hiperfoco é sintoma de TDAH?

Não é critério diagnóstico. Um estudo com 372 adultos, que replicou um piloto com 251, mostrou que quem tem mais sintomas de TDAH relata mais hiperfoco, mas os dados vêm de um questionário novo e mostram apenas associação. Pessoas sem TDAH também podem ter episódios intensos de absorção.

Se consigo me concentrar por horas no que gosto, posso ter TDAH?

Pode. No TDAH, a atenção costuma variar conforme interesse, novidade e recompensa, e não é sempre curta. Por isso, concentrar-se bem no que gosta não exclui o diagnóstico. A avaliação considera a história desde a infância e o prejuízo em vários contextos, e não apenas essa característica.

Hiperfoco é bom ou ruim?

Depende do que se perde enquanto ele dura. Pode aumentar o rendimento em uma tarefa, mas também levar a atrasos, sono e refeições sacrificados e conflitos. Os dados disponíveis não permitem chamá-lo de vantagem ou de defeito. O que importa é conseguir sair dele quando necessário.

Como sair do hiperfoco quando preciso?

Estratégias de bom senso incluem alarmes que interrompam de fora, um ponto de parada combinado antes de começar, obrigações importantes antes das atividades absorventes e horários fixos para dormir e comer. Não há estudos consolidados testando esses métodos para hiperfoco, e quem tem muita dificuldade pode se beneficiar de apoio profissional.

Referências

  1. PubMed: Living "in the zone": hyperfocus in adult ADHD (Hupfeld e colaboradores, ADHD Attention Deficit and Hyperactivity Disorders, 2019)
  2. PubMed: Hyperfocus: the forgotten frontier of attention (Ashinoff e Abu-Akel, Psychological Research, 2021)

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