TDAH e Álcool ou Outras Substâncias: o que a Pesquisa Mostra e o que Fazer
Neuropsicologia

TDAH e Álcool ou Outras Substâncias: o que a Pesquisa Mostra e o que Fazer

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

TDAH e uso de álcool ou drogas se associam, mas a relação é mais complexa que automedicação. Veja o que a pesquisa mostra e como isso entra na avaliação.

Beber para "desligar a cabeça", fumar maconha para relaxar a inquietação, exagerar no álcool nos fins de semana: quem tem dificuldades de atenção e impulsividade às vezes se pergunta se o TDAH tem a ver com isso. A pesquisa mostra que há relação, mas ela é mais complexa do que a ideia de que a pessoa "se automedica". E o inverso também importa, porque substâncias podem causar sintomas parecidos com os do TDAH.

Em resumo: adultos com TDAH têm mais risco de uso problemático de álcool e de outras substâncias, e quase uma em cada quatro pessoas em tratamento por dependência também tem TDAH. A explicação não se resume à automedicação: impulsividade, fatores compartilhados e contexto também contam. O uso de substâncias pode ainda confundir o diagnóstico, e por isso é importante falar dele com franqueza na avaliação.

Duas perguntas diferentes

Há duas perguntas por trás do tema, e a ciência responde cada uma de um jeito:

  1. O TDAH aumenta a chance de desenvolver uso problemático de substâncias?
  2. O uso de substâncias pode provocar ou imitar sintomas de TDAH?

As duas respostas são "sim, em parte". O erro é tratar uma como se fosse a outra: acreditar que todo sintoma de atenção em quem usa substâncias é TDAH, ou que todo uso de substâncias em quem tem TDAH é tentativa de tratamento.

O que a pesquisa mostra

Uma meta-análise de 29 estudos (van Emmerik-van Oortmerssen e colaboradores, 2012) estimou que 23,1% das pessoas em tratamento por transtornos de uso de substâncias preenchiam critérios para TDAH. A taxa foi menor na dependência de cocaína do que nas de álcool, opioides e outras, e dependeu do instrumento usado na avaliação. Isso descreve pacientes em tratamento, e não toda a população com TDAH.

Estudos que acompanham crianças ao longo do tempo olham a relação no outro sentido. Charach e colaboradores (2011) reuniram 13 estudos de coorte e encontraram que o TDAH na infância se associou a transtorno por uso de álcool na vida adulta jovem (razão de chances de 1,35) e ao uso de nicotina na adolescência (2,36). A associação com outras drogas dependeu muito de um único estudo. Lee e colaboradores (2011), em outra meta-análise, relataram maior chance de desenvolver abuso ou dependência de nicotina, álcool, maconha, cocaína e outras substâncias, resultado que se manteve em amostras diferentes. Os autores ressaltam que transtornos de conduta associados dificultam saber o papel exato do TDAH.

Traduzindo: o TDAH eleva o risco, mas risco aumentado não é destino. Muitas pessoas com TDAH nunca desenvolvem dependência, e fatores como ambiente, histórico familiar, saúde mental e acesso às substâncias pesam bastante.

E a ideia de automedicação?

É frequente ouvir que pessoas com TDAH usam substâncias para aliviar os sintomas. Uma revisão de escopo de 2026 (Adamou e Petrou), que mapeou 109 fontes, mostra que essa explicação é mais bem apoiada para alguns casos do que para outros. O enquadramento de automedicação foi mais frequente, e o único acompanhado por dados experimentais, para a nicotina. Para a maconha, a ideia aparece, mas com dados observacionais. O álcool foi mais descrito como comorbidade ou como vulnerabilidade compartilhada. Em geral, a automedicação foi deduzida de associações ou do que as pessoas dizem sobre seus motivos, e não testada contra a mudança real dos sintomas. A conclusão dos autores é que usar a automedicação como explicação geral não se justifica.

Outros caminhos possíveis, que podem coexistir, incluem impulsividade e busca por recompensa imediata, dificuldade de regular emoções, histórico de fracassos e de rejeição, convívio social e fatores biológicos compartilhados. Em muitas histórias, vários desses fatores atuam juntos. Para a questão da impulsividade e do dinheiro, veja TDAH, dinheiro e impulsividade.

Quando a substância confunde o diagnóstico

Álcool, maconha e outras substâncias alteram atenção, memória, sono e humor, em uso ou na retirada. No estudo longitudinal de Sibley e colaboradores (2018), com 239 pessoas sem TDAH na infância, a razão mais frequente para excluir o diagnóstico de TDAH de início tardio foi sintomas ou prejuízo presentes apenas durante o uso intenso de substâncias. Ou seja, parte do que parece TDAH adulto pode ser efeito do uso.

Por isso, quem avalia investiga a linha do tempo: os problemas de atenção já existiam antes do uso? Persistem nos períodos sem usar? Pioram com o consumo? Essas respostas pesam mais do que qualquer questionário. A mesma lógica vale para outras causas, como mostra TDAH em adultos: condições que coexistem e condições que imitam e TDAH de início tardio. Dependendo do caso, o profissional pode combinar o cuidado com o uso e a investigação do TDAH, em vez de fazer uma coisa antes da outra.

O que dizer na avaliação

Conte a verdade sobre o que usa, mesmo que pareça pouco ou constrangedor: tipo de substância, quantidade, frequência, desde quando, o que você sente que ela "resolve" e se houve períodos sem uso. A finalidade não é julgar, e sim interpretar corretamente o quadro. As informações são tratadas com sigilo profissional. Cafeína, nicotina e remédios sem receita também contam.

O diagnóstico médico e as decisões sobre remédio são do psiquiatra ou do neurologista, que também avaliam o uso de substâncias. A avaliação neuropsicológica, feita pelo neuropsicólogo, pode descrever o funcionamento cognitivo, mas não é obrigatória para o diagnóstico. Não use medicamentos de outras pessoas nem produtos sem prescrição "para focar": qualquer decisão sobre remédio é com o seu médico.

Quando procurar ajuda para o uso

Procure atendimento se você usa mais do que pretendia, tenta parar e não consegue, ou se o uso traz prejuízos no trabalho, nas relações ou na saúde. O SUS oferece cuidado em serviços como os CAPS AD, e um médico pode orientar. Quem bebe muito ou usa de forma intensa não deve interromper de repente por conta própria, porque a retirada pode ser perigosa; converse antes com um médico. Em emergência, como convulsão, confusão intensa ou tremores fortes, ligue para o SAMU pelo 192. Se estiver em sofrimento emocional intenso, o CVV atende pelo 188, gratuitamente e a qualquer hora.

Se você quer entender como o TDAH e o uso de substâncias se entrelaçam na sua história, a terapia cognitivo-comportamental trabalha impulsividade, regulação emocional e hábitos, e a página sobre avaliação de TDAH em adultos explica como funciona a investigação.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Quem tem TDAH tem mais chance de ter problemas com álcool ou drogas?

Sim, o risco é maior. Meta-análises de estudos que acompanham crianças com TDAH mostram maior chance de transtorno por uso de álcool, nicotina e outras substâncias na vida adulta. Aumento de risco não significa destino: muitas pessoas com TDAH nunca desenvolvem dependência, e ambiente, saúde mental e histórico familiar influenciam bastante.

As pessoas com TDAH usam substâncias para se automedicar?

Às vezes, mas a ideia não explica tudo. Uma revisão de escopo de 2026 concluiu que o enquadramento de automedicação é mais bem apoiado para a nicotina, aparece em dados observacionais para a maconha e é menos usado para o álcool, que costuma ser visto como comorbidade ou vulnerabilidade compartilhada. Usar a automedicação como explicação geral não se justifica.

Álcool ou maconha podem causar sintomas parecidos com TDAH?

Podem alterar atenção, memória e sono, e isso confunde a avaliação. Em um estudo longitudinal, a razão mais comum para excluir o diagnóstico de TDAH de início tardio foi a presença de sintomas apenas durante o uso intenso de substâncias. Por isso o profissional pergunta quando os problemas começaram e se persistem sem o uso.

Preciso contar sobre meu uso de substâncias na avaliação de TDAH?

Sim, e o ideal é contar com franqueza. A informação não serve para julgar, mas para interpretar corretamente a história e evitar conclusões erradas, em qualquer direção. O profissional está sujeito ao sigilo. Inclua também cafeína, nicotina, remédios sem receita e períodos em que você ficou sem usar.

Se eu uso substâncias, posso fazer a avaliação de TDAH?

Pode, mas o caminho depende do caso. Algumas vezes a avaliação acontece junto com o cuidado do uso; em outras, o médico recomenda tratar primeiro o uso problemático. O que importa é que o profissional saiba da situação, porque ela influencia o diagnóstico, o tratamento e as decisões sobre remédio.

Referências

  1. PubMed: Prevalence of attention-deficit hyperactivity disorder in substance use disorder patients: a meta-analysis and meta-regression analysis (van Emmerik-van Oortmerssen e colaboradores, Drug and Alcohol Dependence, 2012)
  2. PubMed: Childhood attention-deficit/hyperactivity disorder and future substance use disorders: comparative meta-analyses (Charach e colaboradores, Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 2011)
  3. PubMed: Prospective association of childhood attention-deficit/hyperactivity disorder (ADHD) and substance use and abuse/dependence: a meta-analytic review (Lee e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2011)
  4. PubMed: Self-medication of attention-deficit/hyperactivity disorder symptoms with psychoactive substances in adults: a scoping review of how symptom-relief motives are framed and operationalised across substances (Adamou e Petrou, Frontiers in Psychiatry, 2026)
  5. PubMed: Late-Onset ADHD Reconsidered With Comprehensive Repeated Assessments Between Ages 10 and 25 (Sibley e colaboradores, American Journal of Psychiatry, 2018)

Gostou do artigo? Compartilhe com alguém que pode se beneficiar!

Compartilhar no WhatsApp

Isso pode te ajudar

Se a desatenção e a procrastinação atrapalham sua vida há anos, entenda como funciona a avaliação de TDAH.

Avaliação de TDAH em Adultos

Precisa de ajuda profissional?

Se você está enfrentando dificuldades relacionadas a este tema, agende uma consulta para um acompanhamento personalizado.

Agendar Consulta
Thiago C. Rodrigues, psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676
Av. Dr. Cristiano Guimarães, 928, sala 310, 2º andar, Planalto, Belo Horizonte, MG, 31720-240 · (31) 97127-0483