Tricotilomania e Dermatilomania: Sinais, Gatilhos e Tratamento
Comportamento Compulsivo

Tricotilomania e Dermatilomania: Sinais, Gatilhos e Tratamento

Thiago C. Rodrigues

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo | CRP-04/78676

24 de setembro de 2026
6 min de leitura

Arrancar cabelo ou cutucar a pele sem conseguir parar tem nome e tratamento. Veja sinais, gatilhos, a relação com TOC e TDAH e como funciona a reversão de hábito.

A tricotilomania é a dificuldade repetida de parar de arrancar os próprios cabelos ou pelos, e a dermatilomania, também chamada de transtorno de escoriação, é o mesmo padrão com a pele: cutucar, espremer ou arrancar pedaços até causar feridas. As duas fazem parte dos comportamentos repetitivos focados no corpo e têm tratamento psicológico com boa evidência, principalmente o treino de reversão de hábito, aplicado dentro da Terapia Cognitivo-Comportamental.

O que São Comportamentos Repetitivos Focados no Corpo

São ações dirigidas ao próprio corpo que a pessoa tenta interromper várias vezes, sem conseguir. Além de arrancar cabelos e cutucar a pele, existem comportamentos parecidos, como roer as unhas até ferir ou morder a parte interna da bochecha. O problema não é o gesto ocasional, que quase todo mundo tem, e sim a frequência, o dano e o sofrimento que ele causa.

Não se trata de falta de força de vontade. Muitas pessoas escondem as falhas no cabelo com boné, maquiagem ou penteados, cobrem as marcas na pele e sentem vergonha, o que diminui a autoestima e leva a evitar situações sociais.

Classificação na CID-11 e no DSM-5

No DSM-5, manual da Associação Americana de Psiquiatria, a tricotilomania e o transtorno de escoriação estão no capítulo dos transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados. A CID-11, classificação da Organização Mundial da Saúde, criou dentro desse mesmo grupo uma subdivisão própria, os transtornos de comportamento repetitivo focado no corpo, que reúne as duas condições.

A tricotilomania costuma começar no início da adolescência, entre 10 e 13 anos, mas pode surgir em qualquer idade. Em grandes levantamentos nos Estados Unidos, cerca de 1,7% dos adultos relataram tricotilomania atual e cerca de 2,1% relataram transtorno de escoriação.

Sinais e Gatilhos

  • Falhas visíveis no couro cabeludo, nas sobrancelhas ou nos cílios
  • Feridas, cascas, manchas ou cicatrizes no rosto, nos braços, nos dedos ou nos lábios
  • Tentativas repetidas de parar, sem sucesso
  • Tensão ou vontade crescente antes do comportamento e alívio logo depois
  • Muito tempo examinando o cabelo ou a pele no espelho
  • Evitar cabeleireiro, piscina, fotos ou encontros por vergonha

Os gatilhos podem ser emocionais, como ansiedade, tédio, raiva ou cansaço, e sensoriais, como sentir um fio mais áspero ou uma irregularidade na pele. Muitas vezes o comportamento é automático: acontece enquanto a pessoa lê, estuda, usa o celular ou assiste a séries, e ela só percebe depois. Em outros momentos é focado, quando a pessoa procura de propósito o fio ou a casquinha que parece fora do lugar.

Tricotilomania é TOC? É TDAH?

Não é TOC, embora seja um parente próximo. No TOC, o ritual costuma responder a um pensamento obsessivo, como o medo de contaminação. Na tricotilomania e na dermatilomania, o comportamento raramente vem depois de pensamentos intrusivos: ele costuma ser disparado por sensações e pela busca de alívio. Por isso a classificação é vizinha, mas o tratamento principal é diferente. Veja como o TOC se manifesta e é tratado.

Também não é TDAH. São condições distintas que podem aparecer juntas. Em um levantamento, 79% das pessoas com tricotilomania relataram pelo menos outra condição de saúde mental, e as mais comuns foram depressão, ansiedade social, TOC, estresse pós-traumático e TDAH. Se a dificuldade de atenção é antiga e aparece em várias áreas da vida, vale uma avaliação específica de TDAH em adultos.

Tratamento com Treino de Reversão de Hábito

O tratamento psicológico de primeira linha é o treino de reversão de hábito, conhecido pela sigla em inglês HRT, aplicado dentro da TCC. Em estudos controlados, ele se mostrou superior à lista de espera e a intervenções mínimas, e os ganhos em geral se mantiveram nos acompanhamentos de 3 a 6 meses. Os principais componentes são estes:

Consciência do comportamento

Você aprende a registrar quando, onde e como puxa ou cutuca, e a perceber os primeiros movimentos da mão e a vontade que vem antes.

Resposta concorrente

Ao sentir a vontade, você faz uma ação que impede o comportamento, como fechar as mãos, segurar um objeto ou apoiar as mãos nas pernas, até a urgência diminuir.

Controle de estímulos

Pequenas mudanças no ambiente dificultam o hábito: unhas curtas, curativos nos dedos, luvas finas em casa, menos tempo diante do espelho e objetos para ocupar as mãos durante telas e estudo.

Apoio e regulação emocional

Uma pessoa de confiança pode reconhecer os avanços, sem vigiar nem criticar. Quando o gatilho é emocional, a terapia também trabalha ansiedade, tédio e autocrítica.

Medicamentos podem ser considerados em alguns casos, e essa decisão cabe ao psiquiatra. Sobre a pergunta se a tricotilomania tem cura: o mais honesto é dizer que existe tratamento eficaz e que muitas pessoas conseguem reduzir bastante o comportamento. Ter um plano para fases de estresse faz parte do tratamento.

Cuidado Médico com as Feridas

Na dermatilomania, as feridas podem infeccionar. Mantenha a pele limpa e procure um médico se houver cortes que não cicatrizam em poucos dias, vermelhidão que se espalha, calor local, pus ou febre. Sem tratamento, os dois quadros podem levar a complicações médicas sérias, como infecções graves ou, na tricotilomania, bolos de cabelo no estômago em quem engole os fios. Por isso, conte ao médico se isso acontece. Um dermatologista que conheça esses transtornos pode cuidar da pele e do couro cabeludo em paralelo à terapia.

O que Fazer Agora

  • Anote por uma semana cada episódio: hora, lugar, atividade e emoção do momento
  • Deixe as mãos ocupadas nos horários de maior risco, como no celular, no estudo e antes de dormir
  • Crie barreiras simples, como unhas curtas, curativos nos dedos ou boné em casa
  • Troque a autocrítica pela observação: cada registro é informação útil para o tratamento
  • Procure um psicólogo com experiência em TCC e reversão de hábito e, se houver feridas, também um médico

Saiba mais sobre o tratamento de comportamentos compulsivos.

Atendo adolescentes e adultos com tricotilomania e dermatilomania em Belo Horizonte, no bairro Planalto, e também online, usando o treino de reversão de hábito dentro da TCC.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

tricotilomania tem cura?

Não há garantia de cura definitiva, mas existe tratamento eficaz. O treino de reversão de hábito, aplicado na Terapia Cognitivo-Comportamental, tem boa evidência para reduzir o comportamento de arrancar cabelos e cutucar a pele.

tricotilomania é toc?

Não. A tricotilomania fica no mesmo grupo dos transtornos relacionados ao TOC no DSM-5 e na CID-11, mas costuma ser disparada por sensações e busca de alívio, e não por pensamentos obsessivos. Por isso o tratamento principal também é diferente.

tricotilomania é tdah?

Não, são condições diferentes. Elas podem aparecer juntas, e o TDAH está entre os quadros que mais acompanham a tricotilomania, por isso uma avaliação cuidadosa ajuda a definir o tratamento.

arrancar a pele do dedo é doença?

Cutucar a pele de vez em quando é comum. Passa a ser um transtorno, chamado dermatilomania ou transtorno de escoriação, quando é repetido, causa feridas, a pessoa não consegue parar e isso gera sofrimento ou prejuízo.

Referências

  1. NHS: Trichotillomania (hair pulling disorder)
  2. NHS: Skin picking disorder
  3. PMC (Focus, 2021): Trichotillomania and Skin-Picking Disorder: An Update
  4. PMC (World Psychiatry, 2019): Innovations and changes in the ICD-11 classification of mental, behavioural and neurodevelopmental disorders

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