Alexitimia: o que É, Como se Manifesta e por que Não É um Diagnóstico
Inteligência Emocional

Alexitimia: o que É, Como se Manifesta e por que Não É um Diagnóstico

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Alexitimia é a dificuldade de identificar e descrever emoções. Entenda por que é um traço e não um diagnóstico, como aparece e quando buscar ajuda.

Você sabe que não está bem, mas não consegue dizer se é tristeza, raiva ou cansaço? Já lhe disseram que você parece "frio" ou "sem emoção", embora por dentro haja muita coisa acontecendo? A dificuldade de perceber e descrever as próprias emoções tem nome, alexitimia. Vale entender o que ela é e, igualmente importante, o que ela não é.

Em resumo: Alexitimia é um traço caracterizado pela dificuldade de identificar e descrever as próprias emoções e por um estilo de pensamento voltado mais ao que é externo do que ao mundo interno. Existe em graus na população geral e não é um diagnóstico dos manuais psiquiátricos. Quem a tem sente emoções; o que falha é a percepção delas e a tradução em palavras.

O que é alexitimia, em termos simples

O termo vem do grego e significa, aproximadamente, "sem palavras para as emoções". Na revisão de Hogeveen e Grafman (2021), a alexitimia é descrita como uma perturbação da consciência emocional, um construto subclínico presente em vários transtornos psiquiátricos e neurológicos. Ou seja, é uma característica, não uma doença com critérios próprios.

Os pesquisadores costumam falar em três componentes, que correspondem aos fatores do questionário mais usado, a Toronto Alexithymia Scale (TAS-20), conforme descrito no estudo populacional de Salminen e colaboradores (1999): dificuldade de identificar sentimentos, dificuldade de descrevê-los e pensamento orientado ao externo. Na prática, a pessoa pode sentir um aperto no estômago, uma irritação física ou uma agitação, sem relacionar isso à ansiedade ou à tristeza. Ao ser perguntada sobre como se sente, responde com fatos ("o dia foi corrido") em vez de sentimentos.

Um traço em graus, não um diagnóstico

Na população geral finlandesa, com 1.285 participantes, Salminen e colaboradores (1999) encontraram que a alexitimia se distribuía de forma contínua, o que, segundo os autores, a confirma como dimensão de personalidade. Usando um ponto de corte do TAS-20, 13% da amostra ficou acima dele, com mais homens (17%) do que mulheres (10%). Em outra amostra finlandesa maior, com 5.454 pessoas de 30 a 97 anos, Mattila e colaboradores (2006) obtiveram 9,9%, e a alexitimia se associou a sexo masculino, idade mais avançada, menor escolaridade, pior saúde percebida e depressão.

Dois cuidados ao ler esses números. Primeiro, estar acima do ponto de corte de um questionário não equivale a ter um transtorno, e os percentuais variam conforme o instrumento e a cultura. Segundo, trata-se de estudos de associação em populações específicas, que não explicam por si sós as causas. A alexitimia não aparece como diagnóstico no DSM-5, e questionários online não permitem concluir que alguém "tem alexitimia".

A revisão de 2021 também aponta desafios de medida. Um deles é evidente: os questionários dependem do relato da própria pessoa, que tem justamente dificuldade de perceber e descrever o que sente. Por isso a pontuação deve ser lida com cautela e junto com entrevista clínica.

Alexitimia e outras condições

A alexitimia costuma andar junto com outros quadros, mas isso não a torna sinônimo de nenhum deles.

  • Depressão e ansiedade. Como visto, ela se associa a sintomas depressivos na população geral. Nos transtornos psiquiátricos em geral, segundo a revisão de Hogeveen e Grafman, ela pode afetar a resposta ao tratamento.
  • Autismo. Em uma revisão sistemática com metanálise de 15 estudos, Kinnaird e colaboradores (2019) encontraram alexitimia em cerca de metade das pessoas autistas, contra cerca de 5% nos grupos de comparação, o que sugere que dificuldades emocionais atribuídas ao autismo podem refletir, em parte, a alexitimia associada. Os autores concluem que ela é comum, mas não universal no autismo, e a maioria das pessoas com alexitimia não é autista. Mais em autismo em adultos.
  • Condições neurológicas. A revisão de 2021 também descreve correlatos neurais da alexitimia, o que indica que ela pode envolver o funcionamento cerebral, e não só aprendizagem ou personalidade.

O que a alexitimia não é

Não é ausência de emoção. As emoções existem, e muitas vezes são intensas, mas aparecem como sensações físicas, tensão ou comportamentos, sem rótulo. Não é frieza como escolha, nem falta de educação emocional que se resolva com "força de vontade". Também não é, por si só, prova de que a pessoa passou por trauma: a origem do traço ainda é investigada, com possíveis contribuições do desenvolvimento e do funcionamento cerebral. A alexitimia não é uma sentença: perceber e nomear emoções são habilidades que se podem desenvolver, ainda que o quanto o traço em si muda com a intervenção seja uma pergunta em aberto.

Vale ainda distinguir alexitimia de reserva ou introversão. Quem é reservado sabe dizer, para si, "estou irritado", e escolhe não expor. Quem tem alexitimia pode ter dificuldade de saber isso até para si mesmo. A diferença está na percepção, e não na vontade de falar.

Impacto no dia a dia e o que ajuda

Para quem convive com o traço, as consequências costumam ser práticas. Fica mais difícil pedir ajuda, explicar o que se quer ou se sente e entender o próprio corpo, e os outros podem ler a pessoa como indiferente. A revisão de Hogeveen e Grafman (2021) aponta que a alexitimia pode ter impacto negativo nos resultados funcionais e na resposta ao tratamento, e por isso é útil considerá-la na hora de planejar o cuidado. Como é difícil regular o que não se percebe, o assunto se conecta ao tema mais amplo da desregulação emocional.

O que se trabalha, na prática, são as habilidades: notar sinais do corpo, ampliar o vocabulário emocional, ligar situações a sentimentos e comunicá-los. O passo a passo está em não sei o que estou sentindo. Quando a sensação de vazio é intensa, vale ler também sensação de vazio: o que pode ser.

Quando buscar avaliação

Procure ajuda quando a dificuldade com emoções prejudica relações, trabalho ou saúde, ou quando vem acompanhada de tristeza persistente, ansiedade intensa ou sintomas físicos sem explicação. Se, além disso, você reconhece outros sinais de neurodivergência, a avaliação neuropsicológica pode ajudar a esclarecer o quadro e orientar o cuidado, e a psicoterapia é um espaço para praticar o reconhecimento e a comunicação das emoções.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Alexitimia é uma doença?

Não. Alexitimia é um traço, que existe em graus na população geral, e não um diagnóstico nos manuais psiquiátricos como o DSM-5. Ela pode aparecer junto de depressão, ansiedade, autismo e outras condições, mas também ocorre em pessoas sem qualquer transtorno. O que a caracteriza é a dificuldade de identificar e descrever emoções.

Quem tem alexitimia não sente emoções?

Sente. As emoções existem, mas a pessoa tem dificuldade de percebê-las como tais e de colocá-las em palavras, e elas podem aparecer como sensações físicas, tensão ou comportamentos. Por isso quem tem o traço pode ser visto como frio ou indiferente, quando na verdade há muita experiência interna sem rótulo.

Alexitimia é o mesmo que autismo?

Não. Uma metanálise encontrou alexitimia em cerca de metade das pessoas autistas, mas ela também ocorre em pessoas sem autismo, e a maioria das pessoas com alexitimia não é autista. São condições diferentes que podem coexistir. Só uma avaliação clínica pode esclarecer se há autismo, e a alexitimia não serve como critério diagnóstico.

Um teste online confirma alexitimia?

Não. Questionários como o TAS-20 são instrumentos de pesquisa e triagem: ficar acima de um ponto de corte indica dificuldade de identificar e descrever emoções, mas não é diagnóstico e depende da cultura e do contexto. Para entender o que a pontuação significa no seu caso, converse com um psicólogo.

Dá para melhorar a percepção das emoções?

Dá para desenvolver habilidades como notar sinais do corpo, ampliar o vocabulário emocional e relacionar situações a sentimentos, com prática e, se necessário, apoio psicológico. Ainda não se sabe com precisão o quanto o traço em si muda com intervenções, mas a vida diária costuma melhorar quando essas habilidades são treinadas.

Referências

  1. PubMed: Alexithymia (Hogeveen e Grafman, Handbook of Clinical Neurology, 2021)
  2. PubMed: Prevalence of alexithymia and its association with sociodemographic variables in the general population of Finland (Salminen e colaboradores, Journal of Psychosomatic Research, 1999)
  3. PubMed: Age is strongly associated with alexithymia in the general population (Mattila e colaboradores, Journal of Psychosomatic Research, 2006)
  4. PubMed: Investigating alexithymia in autism: A systematic review and meta-analysis (Kinnaird e colaboradores, European Psychiatry, 2019)

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