Esclerose Múltipla Além do Corpo: Memória, Humor e Fadiga
Saúde Física e Mental

Esclerose Múltipla Além do Corpo: Memória, Humor e Fadiga

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Na esclerose múltipla, memória, atenção, humor e fadiga também mudam. Veja o que a pesquisa mostra, o que ajuda e quando avaliar a cognição.

Quando se fala em esclerose múltipla (EM), a primeira imagem costuma ser a de dificuldade para andar ou de problemas de equilíbrio. Mas muita gente com EM relata que o que mais atrapalha a vida é menos visível: o raciocínio mais lento, a memória que falha, o cansaço que não melhora com descanso e o humor que oscila. Essas mudanças são reconhecidas pela pesquisa, podem aparecer mesmo quando o corpo vai bem e merecem cuidado próprio.

Em resumo: A esclerose múltipla afeta mais do que o movimento: cerca de um terço das pessoas com a forma remitente-recorrente apresenta comprometimento cognitivo em testes, e depressão e ansiedade são frequentes. A fadiga é comum e incapacitante. Reabilitação neuropsicológica e programas de manejo da fadiga mostram benefícios pequenos, com evidência limitada. A avaliação neuropsicológica ajuda a mapear o perfil e orientar adaptações.

O que muda além do corpo

A EM é uma doença do sistema nervoso central, e por isso pode afetar funções além da motricidade. As mudanças mais descritas são a lentidão para processar informações, a dificuldade de manter a atenção, de aprender e lembrar coisas novas e de planejar e organizar tarefas (funções executivas). Também são comuns a fadiga, as variações de humor, a ansiedade e, em algumas pessoas, o choro ou o riso involuntários.

Esses sintomas podem aparecer independentemente dos motores. No trabalho, surgem como dificuldade de acompanhar reuniões ou prazos; em casa, como esquecimento de compromissos e dificuldade para organizar a rotina. Como não são visíveis, costumam ser mal compreendidos por colegas, familiares e, às vezes, pela própria pessoa, que se culpa por "não estar rendendo".

Memória e raciocínio: o que a pesquisa mostra

Uma metanálise de 50 estudos, com 5.859 pessoas com EM remitente-recorrente (Wu e colaboradores, 2025), estimou em 32,5% a prevalência de comprometimento cognitivo, definido por desempenho reduzido em pelo menos dois domínios cognitivos, como velocidade de processamento e atenção, em testes padronizados. A prevalência foi maior em amostras com doença de mais longa duração e idade mais avançada.

Isso significa que cerca de um terço das pessoas apresentou queda mensurável, e que a maioria não. Há grande variação de pessoa para pessoa, e a queixa subjetiva nem sempre coincide com o resultado dos testes, que também sofrem influência de fadiga e humor no momento da avaliação. Por isso, a avaliação individual é mais informativa do que médias.

Humor, ansiedade e a relação com a doença

Uma revisão sistemática e metanálise de 58 artigos, com 87.756 pessoas com EM (Boeschoten e colaboradores, 2017), estimou em 30,5% a prevalência de depressão e em 22,1% a de ansiedade. A prevalência de sintomas clinicamente significativos foi maior do que a de transtornos diagnosticados, o que lembra que questionário não é diagnóstico.

As razões possíveis são várias, e provavelmente se somam: a doença pode afetar regiões cerebrais ligadas ao humor, o diagnóstico e a incerteza sobre o futuro são estressantes, as perdas de função pesam e o sono e a fadiga interferem. Não há como atribuir a depressão de uma pessoa a uma só causa. Para o cuidado, a diretriz da Academia Americana de Neurologia (Minden e colaboradores, 2014) indica que se pode considerar a TCC conduzida por telefone para sintomas depressivos (nível de evidência C), mas aponta evidência insuficiente para sustentar ou refutar o uso de muitas outras abordagens farmacológicas e não farmacológicas, e pede mais pesquisas. Isso não significa que as outras não funcionem: significa que faltam estudos específicos em EM. Decisões sobre medicamentos cabem ao neurologista ou ao psiquiatra.

Fadiga: diferente de cansaço comum

A fadiga na EM costuma ser desproporcional ao esforço, piora ao longo do dia ou em situações de calor e não melhora de forma previsível com descanso. Sono ruim, dor, depressão e alguns medicamentos podem contribuir, e por isso ela deve ser investigada com a equipe, e não atribuída automaticamente ao "emocional".

Uma revisão sistemática e metanálise de 15 estudos, com 1.473 participantes (Wendebourg e colaboradores, 2024), avaliou programas de educação para o manejo da fadiga em EM, muitos com componentes de TCC e de conservação de energia. Houve redução da gravidade da fadiga (efeito pequeno, com baixa certeza) e do impacto da fadiga (efeito pequeno, com certeza moderada) logo após as intervenções, com resultados mistos a longo prazo. Na prática, ajudam o planejamento do dia, a priorização do que importa, as pausas antes do esgotamento e a negociação de ajustes no trabalho.

O que ajuda e o papel da avaliação neuropsicológica

Para a cognição, a revisão Cochrane de Rosti-Otajärvi e colaboradores (2014) analisou 20 estudos, com 986 participantes, e encontrou evidência de baixo nível de que a reabilitação neuropsicológica reduz sintomas cognitivos: o treino cognitivo melhorou a extensão da memória e a memória de trabalho, e a combinação com outros métodos melhorou atenção e memória verbal. Não houve efeito sobre funções emocionais. A qualidade dos estudos era baixa, e novos ensaios podem mudar essa conclusão.

A avaliação neuropsicológica entra como ferramenta de mapeamento: com testes padronizados, mostra pontos fortes e dificuldades em atenção, memória, velocidade de processamento e funções executivas, separa em parte o efeito de humor e fadiga e serve de referência para acompanhar mudanças e propor adaptações no trabalho e na rotina. Ela não diagnostica a EM nem indica sozinha a causa das dificuldades, e é interpretada junto da avaliação do neurologista. Veja como funciona a avaliação neuropsicológica e funções executivas: o que são.

Sinais que pedem contato com a equipe

Surgimento de sintomas novos ou piora clara, como perda de visão, fraqueza, formigamento intenso, dificuldade para falar ou andar, devem ser comunicados ao neurologista em breve, pois podem indicar um surto; em emergência, ligue para o SAMU 192. Se o humor deprimido persistir, houver desesperança ou pensamentos de se machucar, procure ajuda; o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas.

Para levar daqui

Na EM, o que não se vê também é parte da doença. Reconhecer memória, humor e fadiga como sintomas, e não como falhas pessoais, abre caminho para adaptar a rotina e pedir apoio. Se o sofrimento, a ansiedade ou a tristeza estão pesando, a psicoterapia cognitivo-comportamental pode ajudar, em conjunto com o acompanhamento neurológico. Para pensar em conviver com uma condição de longa duração, leia Recebi um diagnóstico de doença crônica: e agora?.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Esclerose múltipla afeta a memória?

Pode afetar. Uma metanálise de 50 estudos estimou que cerca de 32,5% das pessoas com EM remitente-recorrente apresentam comprometimento cognitivo em testes padronizados, com mais frequência em quem tem doença de maior duração e idade mais avançada. Isso também significa que a maioria não apresenta queda mensurável. A avaliação individual é mais informativa do que médias.

Depressão é comum na esclerose múltipla?

Sim. Uma metanálise de 58 artigos e quase 88 mil pessoas estimou depressão em 30,5% e ansiedade em 22,1%, com mais sintomas clinicamente significativos do que transtornos diagnosticados. As causas são múltiplas e provavelmente somam efeito da doença no cérebro, incerteza, perdas, sono e fadiga. Merece avaliação e tratamento próprios.

A fadiga da esclerose múltipla é diferente do cansaço comum?

Costuma ser mais intensa do que o esforço explicaria, piorar ao longo do dia ou com o calor e não melhorar de forma previsível com repouso. Sono ruim, dor, depressão e alguns medicamentos podem contribuir. Por isso a fadiga deve ser investigada pela equipe de saúde e não atribuída automaticamente a causas emocionais.

Dá para melhorar a cognição na esclerose múltipla?

Há indícios, de baixo nível de evidência, de que a reabilitação neuropsicológica melhora alguns aspectos, como memória de trabalho e atenção, segundo uma revisão Cochrane de 20 estudos. Os estudos têm limitações, e novos ensaios podem alterar a conclusão. Estratégias práticas de organização e o manejo da fadiga e do humor também ajudam no dia a dia.

Quando fazer avaliação neuropsicológica na esclerose múltipla?

Quando as dificuldades de memória, atenção ou organização atrapalham trabalho, estudos ou autonomia, ou quando a equipe quer um mapa objetivo do perfil cognitivo para orientar adaptações e acompanhar mudanças. A avaliação não diagnostica a EM e é interpretada junto da avaliação neurológica.

Referências

  1. PubMed: The Prevalence of Cognitive Impairment in Relapsing-Remitting Multiple Sclerosis: A Systematic Review and Meta-analysis (Wu e colaboradores, Neuropsychology Review, 2025)
  2. PubMed: Prevalence of depression and anxiety in Multiple Sclerosis: A systematic review and meta-analysis (Boeschoten e colaboradores, Journal of the Neurological Sciences, 2017)
  3. PubMed: Evidence-based guideline: assessment and management of psychiatric disorders in individuals with MS (Minden e colaboradores, Neurology, 2014)
  4. PubMed: Education for fatigue management in people with multiple sclerosis: Systematic review and meta-analysis (Wendebourg e colaboradores, European Journal of Neurology, 2024)
  5. PubMed: Neuropsychological rehabilitation for multiple sclerosis (Rosti-Otajärvi e colaboradores, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2014)

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