Por que reuniões por vídeo cansam tanto? Veja o que a pesquisa mostra sobre a fadiga de videochamada, o papel da câmera e das pausas e quando se preocupar.
Depois de um dia de reuniões por vídeo, muita gente sente a cabeça pesada, os olhos cansados e uma vontade de ficar em silêncio, mesmo sem ter feito esforço físico. O fenômeno recebeu o nome de fadiga de videochamada, ou Zoom fatigue. Ele é relatado em vários estudos, mas as explicações ainda são em boa parte hipóteses. O que há de mais sólido é que o uso da câmera, o número de chamadas e o estado de saúde e de isolamento da pessoa contam.
Em resumo: A fadiga de videochamada é uma sensação de esgotamento após reuniões online, não um diagnóstico. Um experimento de campo mostrou mais cansaço nos dias com câmera ligada, e levantamentos associam o cansaço a mais chamadas, isolamento e ansiedade com a própria imagem. As causas teóricas, como contato visual excessivo e menos movimento, ainda não foram testadas direto. Desligar a câmera às vezes e fazer pausas ajudam.
O que é fadiga de videochamada, e o que não é
Elbogen e colaboradores (2022) a descrevem como sentir-se ansioso, socialmente isolado ou emocionalmente exausto, pela falta de conexão social associada ao uso excessivo de videoconferência no trabalho. Não é um diagnóstico, e se mistura com outros fenômenos: sobrecarga de reuniões, ritmo de trabalho, falta de pausas e falta de contato presencial. Por isso é útil separar o cansaço passageiro, que melhora com descanso, do esgotamento persistente, que pede atenção, tema de burnout e estresse crônico.
Por que cansa: hipóteses
Bailenson (2021, Technology, Mind, and Behavior) propõe que o problema é o excesso de sinais não verbais e apresenta quatro argumentos de por que as plataformas de vídeo podem cansar. Em linhas gerais, eles são o contato visual intenso e prolongado com rostos muito próximos na tela, a maior carga cognitiva para produzir e interpretar sinais pela câmera, a autoavaliação constante por ver a própria imagem e a redução da mobilidade, pois é preciso ficar parado diante da câmera. O próprio autor ressalta que são argumentos baseados em teoria, que ainda precisam ser testados diretamente no contexto das videochamadas.
O que os estudos mostram
| Fator | O que se observou | Tipo de estudo |
|---|---|---|
| Câmera ligada | Mais fadiga no dia, em especial para mulheres e novos funcionários | Experimento de campo, 103 pessoas |
| Mais chamadas por semana | Associadas a mais fadiga | Levantamento nacional, 902 pessoas |
| Ansiedade com a própria imagem e sensação de estar preso | Associadas a mais fadiga | Levantamento, 291 pessoas |
Shockley e colaboradores (2021, Journal of Applied Psychology) conduziram um experimento de campo de quatro semanas, no qual o uso da câmera nas reuniões variava por condição. Em 1.408 observações diárias de 103 funcionários, os dias com câmera ligada associaram-se a mais fadiga, e a fadiga se relacionou a menos participação e engajamento nas reuniões, no mesmo dia e no seguinte. O efeito foi maior para mulheres e para quem estava há menos tempo na organização.
Elbogen e colaboradores (2022), em um levantamento nacional com 902 adultos que passaram a trabalhar por videoconferência, observaram que mais fadiga se associava a mais chamadas por semana, solidão, menor apoio social e sintomas depressivos, e a associação com os sintomas depressivos se manteve mesmo após ajuste para dados demográficos, sociais e clínicos. Ma e colaboradores (2025), com 291 pessoas na China, encontraram associação com complexidade tecnológica, pior estado de saúde, atitudes negativas, ansiedade ao se ver na tela, sensação de estar fisicamente preso e esforço para produzir sinais não verbais. Esses levantamentos mostram associação, e não causa, e usam relato das próprias pessoas.
O que fazer
As recomendações a seguir combinam os achados dos estudos com bom senso, e algumas ainda não têm teste direto:
- Desligue a câmera quando ela não for necessária. Foi a variável manipulada no experimento de Shockley, e os autores do levantamento chinês também sugerem desligar câmera e microfone de vez em quando.
- Faça pausas entre reuniões. Reuniões em sequência não deixam tempo para se movimentar e se recuperar.
- Reduza o que não precisa de reunião. Eliminar reuniões desnecessárias é uma das recomendações dos autores do levantamento chinês.
- Mexa o corpo. Levantar, alongar e, se possível, atender uma chamada de voz caminhando reduz a imobilidade apontada como hipótese.
- Ocultar a própria imagem na tela pode diminuir a autoavaliação constante, o que é uma hipótese razoável, já que a ansiedade com a própria imagem se associa à fadiga.
- Combine regras na equipe. Quando o cansaço vem do volume de reuniões e da cultura de disponibilidade permanente, ajustar a câmera não resolve. O tema se liga às exigências psicossociais descritas em NR-1 e saúde mental no trabalho.
Uma forma de saber se a câmera pesa no seu caso é fazer um pequeno teste por duas semanas: nas reuniões em que ela for opcional, desligue-a em metade das vezes e anote, ao fim do dia, o seu nível de energia e de concentração. É um experimento pessoal, sem valor estatístico, mas pode mostrar um padrão útil.
O mesmo raciocínio vale para atendimentos de saúde por vídeo: se a videochamada cansa, vale conversar com o profissional sobre pausas e formato, assunto também tratado em terapia online.
Quando é sinal de algo maior
Se o cansaço persiste mesmo nos fins de semana, vem com perda de interesse, irritabilidade, sono ruim ou sensação de que o trabalho perdeu o sentido, pode haver esgotamento ou depressão, e não apenas fadiga de tela. Veja sintomas do burnout, cansaço mental e a página sobre depressão. Se houver desesperança ou pensamentos de se machucar, o CVV (188, gratuito, 24 horas) e o SAMU (192) atendem a qualquer momento.
Conclusão
A fadiga de videochamada é real como experiência, mas nem sempre vem da tecnologia: costuma refletir também o excesso de reuniões, a falta de pausas e o isolamento. Ajustes simples de câmera, pausas e redução de chamadas podem ajudar. Se o esgotamento está associado a ansiedade ou a estresse crônico, a terapia cognitivo-comportamental pode ajudar a organizar limites e estratégias de recuperação.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
Perguntas frequentes
O que é fadiga de videochamada ou Zoom fatigue?
É a sensação de esgotamento, ansiedade ou isolamento depois de muitas reuniões por vídeo. Não é um diagnóstico. Pode incluir cansaço visual e mental, vontade de ficar em silêncio e dificuldade de concentração. Ela se mistura com sobrecarga de reuniões, falta de pausas e pouco contato presencial.
Manter a câmera ligada cansa mais?
Em um experimento de campo com 103 funcionários, nos dias com câmera ligada houve mais fadiga, e o efeito foi maior em mulheres e em quem estava há menos tempo na organização. A fadiga se relacionou a menos participação nas reuniões. Desligar a câmera quando não for necessário é uma medida simples a testar.
Por que reunião online cansa mais que a presencial?
Há hipóteses, como contato visual excessivo, esforço para interpretar sinais pela câmera, ver a própria imagem o tempo todo e ficar parado. Elas se baseiam em teoria e ainda precisam ser testadas diretamente. Fatores como número de reuniões, ausência de pausas, isolamento e saúde também aparecem em levantamentos.
Fadiga de videochamada é o mesmo que burnout?
Não. A fadiga costuma ser passageira e melhora com descanso e ajustes, enquanto o burnout é um esgotamento crônico ligado ao trabalho, com exaustão, distanciamento e queda de eficácia. Se o cansaço persiste mesmo nas folgas e vem com perda de interesse ou desânimo, vale procurar avaliação profissional.
O que posso fazer hoje para reduzir esse cansaço?
Desligue a câmera quando possível, faça pausas entre reuniões, levante e alongue, atenda algumas chamadas por voz andando e oculte a própria imagem. Proponha com a equipe menos reuniões e horários sem chamadas. Se o problema vier do volume de trabalho, os ajustes de câmera serão insuficientes.
Referências
- Nonverbal overload: A theoretical argument for the causes of Zoom fatigue (Bailenson, Technology, Mind, and Behavior, 2021)
- PubMed: The fatiguing effects of camera use in virtual meetings: A within-person field experiment (Shockley e colaboradores, Journal of Applied Psychology, 2021)
- PubMed: A National Study of Zoom Fatigue and Mental Health During the COVID-19 Pandemic: Implications for Future Remote Work (Elbogen e colaboradores, Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 2022)
- PubMed: A cross-sectional survey of videoconferencing fatigue and its influencing factors during COVID-19 in the Chinese population (Ma e colaboradores, Scientific Reports, 2025)




