Lecanemabe e Donanemabe no Alzheimer: O que São, o que a Anvisa Aprovou e Qual o Papel da Avaliação Neuropsicológica
Neuropsicologia

Lecanemabe e Donanemabe no Alzheimer: O que São, o que a Anvisa Aprovou e Qual o Papel da Avaliação Neuropsicológica

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

5 min de leitura

Lecanemabe e donanemabe têm registro na Anvisa para Alzheimer inicial. Veja quem pode usar, o que os estudos mostram, riscos e o papel da neuropsicologia.

Notícias sobre novos remédios para o Alzheimer geram esperança e muitas dúvidas. Lecanemabe e donanemabe são os primeiros medicamentos aprovados no Brasil que atuam sobre um mecanismo da doença, e não apenas sobre os sintomas. Mas eles servem a um grupo específico, trazem riscos e têm efeito moderado. Entender isso evita tanto o otimismo exagerado quanto o descarte injusto.

Em resumo: lecanemabe e donanemabe são anticorpos que removem placas de beta-amiloide do cérebro. A Anvisa os registrou para comprometimento cognitivo leve ou demência leve por Alzheimer, sem duas cópias do gene APOE ε4 (e, no lecanemabe, com amiloide confirmada). Nos estudos, retardaram o declínio em comparação com placebo, sem curar, e podem causar alterações de imagem (ARIA). A indicação é médica, e a avaliação neuropsicológica ajuda a documentar e acompanhar o quadro.

O que são e o que a Anvisa aprovou

Ambos são anticorpos monoclonais, aplicados por infusão na veia, que se ligam à proteína beta-amiloide e ajudam a removê-la das placas que se acumulam no cérebro de pessoas com Alzheimer. Segundo a página da Anvisa, o donanemabe (Kisunla) teve registro publicado no Diário Oficial em 22 de abril de 2025, e o lecanemabe (Leqembi), em 22 de dezembro de 2025. Em ambos, a indicação é o tratamento de comprometimento cognitivo leve e demência leve associados à doença de Alzheimer, em adultos que são heterozigotos ou não portadores do alelo ε4 da apolipoproteína E (APOE ε4). No caso do lecanemabe, a Anvisa menciona ainda patologia amiloide confirmada.

Isso significa que a aprovação não cobre quem está em fase moderada ou grave, nem quem tem duas cópias do ε4, por causa do maior risco de efeitos adversos nesse grupo. Para a doença em estágios mais avançados, a abordagem continua sendo o cuidado clínico, o manejo de sintomas e o apoio à família. Veja as fases do Alzheimer.

O que os estudos mostram, e o tamanho do benefício

No estudo de van Dyck e colaboradores (New England Journal of Medicine, 2023), 1.795 pessoas com Alzheimer inicial receberam lecanemabe ou placebo por 18 meses. O grupo tratado piorou menos na escala CDR-SB, que mede gravidade clínica, com diferença de 0,45 ponto em uma escala de 18. No estudo de Sims e colaboradores (JAMA, 2023), 1.736 pessoas receberam donanemabe ou placebo, e o grupo tratado também teve menor declínio em escalas cognitivas e funcionais, como a iADRS.

Como interpretar? Os resultados são estatisticamente significativos e mostram que o declínio foi mais lento em média, mas a diferença é modesta e a discussão sobre se ela é perceptível no dia a dia continua em curso na literatura. A revisão de Budson e colaboradores (2026) discute justamente as considerações para usar essas terapias na prática. Nada disso é cura: a doença continua avançando, apenas mais devagar, em média, e cada pessoa responde de um jeito.

Riscos e exigências do tratamento

O efeito adverso mais discutido são as ARIA (anormalidades de imagem relacionadas à amiloide): inchaço temporário ou pequenos sangramentos no cérebro, vistos na ressonância magnética. Na maioria das vezes não dão sintomas, mas podem causar dor de cabeça, confusão ou outros sinais e, em casos raros, ser graves. A Anvisa informa que a relação entre benefício e risco é favorável apenas em não portadores ou heterozigotos de APOE ε4, e que o teste do gene deve ser feito antes do tratamento. A bula também contraindica o uso quando a ressonância prévia mostra certos achados, como sinais de hemorragia. Por isso o tratamento exige exames de imagem de controle e acompanhamento próximo.

Esses medicamentos, portanto, não são para qualquer pessoa com esquecimento. Exigem diagnóstico bem estabelecido, confirmação de amiloide (por líquor ou imagem) e avaliação dos riscos. Quem tem dúvidas deve conversar com o médico, sem iniciar, parar ou trocar qualquer remédio por conta própria. Sobre exames de sangue que vêm sendo estudados para apoiar essa confirmação, veja exame de sangue para Alzheimer.

Onde entra a avaliação neuropsicológica

A avaliação neuropsicológica não indica nem contraindica o medicamento; essa decisão é médica. Seu papel é outro e é relevante em três pontos. Primeiro, caracterizar o ponto de partida: como estão memória, atenção, linguagem e funções executivas, e qual o nível de independência, o que ajuda a situar a pessoa entre comprometimento cognitivo leve e demência leve. Segundo, acompanhar mudanças: reavaliações em intervalos adequados comparam o desempenho com o ponto de partida, como explica reavaliação neuropsicológica, lembrando que variações pequenas podem refletir o acaso, o humor ou o sono. Terceiro, orientar o cuidado, indicando o que está preservado e onde adaptar a rotina.

É importante lembrar que um escore baixo ou alto não decide nada sozinho, como discute o artigo sobre limites da interpretação de escores. Para quem começa a investigar, veja teste de memória para idosos e quem procurar: geriatra, neurologista ou neuropsicólogo.

O lado emocional da decisão

Decidir sobre um tratamento com benefício modesto e riscos reais mobiliza esperança, medo e culpa, tanto na pessoa quanto na família. O acompanhamento psicológico ajuda a conversar sobre expectativas realistas, a lidar com a ansiedade das idas ao hospital e a não transformar a escolha em fonte de conflito. A Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha pensamentos como "se eu não fizer, serei culpado" e ajuda a tomar decisões alinhadas aos valores de cada um. O cuidado com quem cuida também importa: leia sobrecarga do cuidador.

Quando procurar ajuda

Se há esquecimentos persistentes, procure avaliação médica antes de pensar em qualquer tratamento. Em caso de confusão súbita, sonolência intensa, dor de cabeça forte, convulsão ou alteração neurológica nova durante qualquer tratamento, procure atendimento de urgência (SAMU 192).

Posso contribuir com a avaliação neuropsicológica como parte do acompanhamento, em conjunto com a equipe médica, e há mais sobre cuidado cognitivo na maturidade em longevidade.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Lecanemabe e donanemabe curam o Alzheimer?

Não. Nos estudos, esses medicamentos retardaram o declínio em pacientes em fase inicial em comparação com placebo, mas não interrompem nem revertem a doença. O benefício medido é modesto e depende de seleção cuidadosa e acompanhamento. Quem decide se o tratamento é adequado para cada pessoa é o médico, com base em critérios e exames.

Quem pode usar esses medicamentos, segundo a Anvisa?

A bula aprovada indica comprometimento cognitivo leve ou demência leve devido ao Alzheimer, com patologia amiloide confirmada, em pessoas não portadoras ou heterozigotas do alelo APOE ε4. Portadores de duas cópias do ε4 têm maior risco de efeitos adversos. A decisão é médica, e a prescrição exige exames de imagem e acompanhamento.

Quais são os principais riscos?

Os mais discutidos são as alterações de imagem relacionadas à amiloide, conhecidas como ARIA: inchaço temporário ou pequenos sangramentos no cérebro, que na maioria das vezes não causam sintomas, mas podem ser graves em alguns casos. Por isso há ressonâncias de controle. Dúvidas sobre riscos e sintomas devem ser levadas ao médico responsável.

Qual a utilidade da avaliação neuropsicológica nesse contexto?

Ela descreve o perfil cognitivo, ajuda a documentar o ponto de partida, a acompanhar mudanças ao longo do tratamento e a orientar adaptações no dia a dia. Não substitui exames nem decide a indicação do remédio, que é médica. Também permite ajustar as expectativas da pessoa e da família com base em dados concretos.

Referências

  1. PubMed: Lecanemab in Early Alzheimer's Disease (van Dyck e colaboradores, N Engl J Med, 2023)
  2. PubMed: Donanemab in Early Symptomatic Alzheimer Disease: The TRAILBLAZER-ALZ 2 Randomized Clinical Trial (Sims e colaboradores, JAMA, 2023)
  3. Anvisa: Kisunla (donanemabe): novo registro
  4. Anvisa: LEQEMBI (lecanemabe): novo registro
  5. PubMed: Considerations for using amyloid-targeting therapies for the treatment of early symptomatic Alzheimer's disease (Budson e colaboradores, Front Neurol, 2026)

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