Exame de Sangue para Alzheimer: O que São os Biomarcadores, o que Podem Dizer e Quais os Limites
Neuropsicologia

Exame de Sangue para Alzheimer: O que São os Biomarcadores, o que Podem Dizer e Quais os Limites

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Existe exame de sangue para Alzheimer? Entenda o que é o p-tau217, para quem serve, o que o resultado não mostra e por que não dispensa avaliação.

Nos últimos anos, apareceram notícias sobre exames de sangue capazes de apontar sinais do Alzheimer. A pergunta natural é: dá para descobrir a doença com uma picada no braço? A resposta honesta é que esses exames são um avanço importante, mas servem a situações específicas, têm limites claros e não substituem a avaliação clínica.

Em resumo: biomarcadores sanguíneos, como a proteína p-tau217, indicam se há sinais biológicos compatíveis com o Alzheimer. Estudos e diretrizes os apoiam em pessoas que já têm sintomas cognitivos e passam por avaliação médica, e não como teste de rastreio para quem não tem queixa. Um resultado alterado não diz fase, ritmo nem quando a doença aparecerá. O diagnóstico continua sendo clínico, com apoio de avaliação cognitiva.

O que são biomarcadores

Biomarcador é uma medida biológica que sinaliza um processo no organismo. No Alzheimer, os mais estudados refletem o acúmulo de beta-amiloide e de proteína tau alterada, características da doença. Até pouco tempo, confirmar esses sinais exigia exames de imagem especiais ou a coleta de líquor (líquido da espinha), procedimentos mais caros, invasivos ou de acesso limitado. O sangue é mais simples de colher, por isso a pesquisa investe nele. O p-tau217 é uma forma da proteína tau que, no sangue, tem mostrado boa relação com a presença da patologia do Alzheimer.

O que a pesquisa mostra

Palmqvist e colaboradores (JAMA, 2024) avaliaram biomarcadores sanguíneos, principalmente o p-tau217, em pessoas com sintomas cognitivos atendidas em cuidado primário e em serviços especializados. O estudo mostrou que o teste identificou a patologia do Alzheimer com acurácia maior do que a avaliação clínica isolada, tanto de médicos de cuidado primário quanto de especialistas, e sugeriu que pode ajudar a reduzir exames mais caros ou invasivos, em especial usando uma faixa intermediária em que o resultado não é conclusivo.

Em 2025, a Alzheimer's Association publicou uma diretriz clínica (Palmqvist e colaboradores) sobre o uso desses exames na investigação de suspeita de Alzheimer em serviços especializados. Em linhas gerais, ela indica que testes com desempenho suficientemente alto podem ser usados como triagem ou como confirmação em pessoas com sintomas cognitivos e que o resultado deve ser integrado à avaliação clínica. A própria diretriz limita o escopo: não se trata de recomendação para quem não tem sintomas.

Vale ressaltar o que esse resultado significa e o que não significa. Ele se refere a pessoas já encaminhadas por queixa cognitiva, e a acurácia aqui diz respeito a identificar a patologia, não a prever o futuro. Também não coloca o exame no lugar do raciocínio clínico: o médico continua precisando entender a história, excluir causas tratáveis, como alterações de tireoide, deficiência de vitaminas, efeitos de remédios e depressão, e definir o que fazer com o resultado. O mesmo vale para o acompanhamento posterior da pessoa e da família.

Limites que precisam ficar claros

  • Não é rastreio para todos. Em quem não tem queixa, um resultado alterado não permite saber se, quando ou como a doença se manifestará, e pode gerar ansiedade sem benefício comprovado;
  • Resultado intermediário existe. Uma parcela dos testes cai em zona de incerteza, que pede exame complementar;
  • Não mostra fase nem gravidade. Não informa o quanto a pessoa está funcionando no dia a dia;
  • Pode haver outras causas juntas. Muitas pessoas idosas têm mais de um processo ao mesmo tempo, como alterações vasculares, e o exame não exclui outras condições;
  • Condições do paciente interferem. Alguns problemas de saúde, como doença renal, podem alterar valores, e a interpretação cabe ao médico;
  • Acesso e cobertura variam. A disponibilidade no Brasil e as indicações oficiais mudam rápido; vale perguntar ao médico.

Esses limites explicam por que o exame se soma a outras informações, e não as substitui. Para o panorama de como esses exames se relacionam com os novos tratamentos, veja lecanemabe e donanemabe, já que a confirmação da patologia amiloide faz parte da indicação desses remédios.

E o gene APOE?

O gene APOE costuma aparecer junto com o tema dos biomarcadores. Ter o alelo ε4 aumenta o risco de Alzheimer, e Fortea e colaboradores (Nature Medicine, 2024) defenderam que a presença de duas cópias do ε4 representa uma forma genética distinta da doença, com início de alterações biológicas mais cedo. Isso não significa que todo portador desenvolverá a doença, nem que quem não tem o ε4 está protegido. Testar o gene envolve implicações emocionais e familiares e deve ser conversado com um médico, inclusive porque o resultado entra na decisão sobre alguns tratamentos.

Por que a avaliação neuropsicológica continua necessária

O exame de sangue responde a uma pergunta de biologia: há sinais da patologia? A avaliação neuropsicológica responde a outras: o que está funcionando e o que não está, em quais áreas, com que impacto na vida e como isso evolui. Duas pessoas com o mesmo resultado no sangue podem ter desempenhos muito diferentes, assim como uma pessoa com queixa forte pode ter resultado normal e a causa estar em humor, sono ou outra condição, tema de ansiedade, depressão e sono em avaliações cognitivas. Para os primeiros sinais, veja sinais iniciais de Alzheimer e comprometimento cognitivo leve.

O laudo neuropsicológico ainda serve de linha de base para comparar, depois, se houve mudança, como na reavaliação, e orienta a rotina da família. Como psicólogo, não solicito nem interpreto exames de sangue; esse é o campo do médico.

Quando procurar ajuda

Busque avaliação médica diante de esquecimentos que se repetem, pioram ou atrapalham tarefas, ou quando a família percebe mudanças. Confusão súbita é emergência: ligue 192 (SAMU). Se o medo de ter a doença estiver tomando conta, o acompanhamento psicológico, incluindo a Terapia Cognitivo-Comportamental, pode ajudar a lidar com a ansiedade antecipatória. Para cuidar da cognição ao longo do tempo, veja longevidade e como reduzir fatores de risco para demência, lembrando que nenhuma medida garante evitar a doença.

Em resumo, o exame de sangue é uma ferramenta nova e promissora para quem já tem sintomas, mas é uma peça do quebra-cabeça, não a resposta inteira.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Um exame de sangue consegue diagnosticar o Alzheimer?

Ele pode indicar se há sinais biológicos compatíveis com a doença, como proteínas ligadas ao Alzheimer, mas isso não é o mesmo que diagnóstico. O diagnóstico depende da história clínica, do exame médico, da avaliação cognitiva e, quando necessário, de outros exames. O resultado precisa ser interpretado por um médico, no contexto de cada pessoa.

Posso fazer o exame de sangue só para saber se vou ter Alzheimer?

As diretrizes e os estudos se concentram em pessoas que já têm sintomas cognitivos. Em quem não tem queixa, um resultado alterado não diz quando nem se a doença vai se manifestar, e pode gerar ansiedade sem benefício claro. Se tiver essa dúvida, converse com um médico antes de pedir o exame por conta própria.

O que significa um resultado alterado de p-tau217?

Significa que há sinais compatíveis com a patologia do Alzheimer, o que apoia a hipótese quando a pessoa tem sintomas. Não indica a gravidade, a fase nem o ritmo da doença, e pode existir outra causa associada. Por isso o resultado deve ser interpretado pelo médico junto com o quadro clínico e outros dados.

A avaliação neuropsicológica ainda é necessária se existe exame de sangue?

Sim, porque os dois respondem a perguntas diferentes. O exame de sangue fala de biologia. A avaliação neuropsicológica descreve como estão memória, atenção, linguagem e funções executivas, o impacto na vida diária e o que está preservado. Essa descrição orienta o cuidado, as adaptações e o acompanhamento.

Referências

  1. PubMed: Blood Biomarkers to Detect Alzheimer Disease in Primary Care and Secondary Care (Palmqvist e colaboradores, JAMA, 2024)
  2. PubMed: Alzheimer's Association Clinical Practice Guideline on the use of blood-based biomarkers in the diagnostic workup of suspected Alzheimer's disease within specialized care settings (Palmqvist e colaboradores, Alzheimers Dement, 2025)
  3. PubMed: Revised criteria for diagnosis and staging of Alzheimer's disease: Alzheimer's Association Workgroup (Jack e colaboradores, Alzheimers Dement, 2024)
  4. PubMed: APOE4 homozygozity represents a distinct genetic form of Alzheimer's disease (Fortea e colaboradores, Nat Med, 2024)

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