Fazer várias coisas ao mesmo tempo funciona? Entenda o custo de alternar tarefas, o que a pesquisa diz sobre multitarefa e atenção e como reduzir trocas.
Responder mensagens durante uma reunião, escrever com o podcast ligado, alternar entre seis abas e o celular: muita gente se orgulha de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Será que funciona? Para tarefas que exigem atenção, o cérebro não executa duas ao mesmo tempo, mas alterna entre elas, e cada troca tem custo. Já a ideia de que viver em multitarefa "estraga" a atenção para sempre é bem menos firme do que parece.
Em resumo: Em tarefas que exigem atenção, o que chamamos de multitarefa é, na verdade, alternância rápida, e cada troca gasta tempo e aumenta a chance de erro. Pessoas que alternam muito entre mídias tendem a ter mais lapsos de atenção em alguns estudos, mas replicações mostraram resultados inconsistentes e a causa e o efeito continuam incertos. Tarefas automáticas são a exceção que funciona.
Multitarefa de verdade e alternância rápida
Há situações em que fazer duas coisas juntas é possível, porque uma delas é automática: caminhar e conversar, por exemplo. O problema surge quando as duas tarefas pedem atenção deliberada, como ler um relatório e responder a um colega por mensagem. Nesses casos, a mente alterna, e a sensação de que as duas coisas estão andando junto é uma ilusão de continuidade.
| Situação | Costuma funcionar? | Motivo |
|---|---|---|
| Caminhar e conversar | Sim | Uma das tarefas é automática |
| Responder mensagem durante reunião | Não | As duas pedem linguagem e atenção |
| Redigir texto com avisos abertos | Custa caro | Cada interrupção exige retomar o raciocínio |
| Estudar com um vídeo ao lado | Tende a prejudicar | A atenção se divide entre dois conteúdos |
A tabela traz exemplos ilustrativos, não resultados de um estudo específico.
O custo de alternar tarefas
Rubinstein, Meyer e Evans (2001) estudaram a alternância em quatro experimentos, em que voluntários revezavam entre tarefas ou repetiam a mesma. A troca gerou custo de tempo, que aumentava quando as regras da tarefa eram mais complexas e diminuía quando havia pistas visuais indicando qual tarefa fazer. Em termos práticos, trocar de tarefa fica mais caro quando o que se faz é difícil, e mais barato quando existe um lembrete claro de onde se parou. Essa é uma razão simples para deixar anotado o próximo passo antes de interromper um trabalho.
Quem faz muita multitarefa de mídia tem pior atenção?
O estudo que popularizou a ideia foi o de Ophir, Nass e Wagner (2009, PNAS). Eles compararam pessoas que usavam várias mídias ao mesmo tempo com frequência com as que faziam isso pouco, e encontraram que as primeiras eram mais sensíveis a interferência de estímulos irrelevantes e foram piores em um teste de alternância de tarefas. A conclusão foi que a multitarefa crônica se associa a um jeito diferente de processar informação.
O que veio depois foi mais complicado:
- Replicação: Wiradhany e Nieuwenstein (2017) repetiram o trabalho em dois estudos, com 14 testes. Apenas cinco mostraram o efeito esperado, e só dois resistiram a uma análise bayesiana mais conservadora. Na metanálise de 39 efeitos, a associação era fraca e deixou de ser significativa após correção para o viés de estudos pequenos.
- Revisão: Uncapher e Wagner (2018) concluíram que, no balanço, quem faz mais multitarefa de mídia tende a ter desempenho pior em alguns domínios cognitivos, em geral nos que dependem de atenção sustentada. Ressaltaram também que muitos estudos não encontram diferença e que a direção de causa e efeito é desconhecida.
- Memória: Madore e colaboradores (2020, Nature) avaliaram 80 jovens com eletroencefalograma e medidas de pupila em uma tarefa de memória. Lapsos de atenção explicaram parte do esquecimento, e a multitarefa de mídia mais intensa se associou a mais lapsos e a mais esquecimento.
Causa ou consequência?
Os dados não permitem escolher entre três leituras. Pode ser que a multitarefa frequente treine a mente para se distrair com facilidade. Pode ser que pessoas que já têm mais dificuldade de sustentar a atenção sejam mais atraídas por alternar entre estímulos. E pode haver fatores em comum, como estresse, sono ruim ou um trabalho que exige responder a tudo ao mesmo tempo. Essa dúvida entre correlação e causa é o tema de correlação e causalidade em estudos sobre telas.
O que fazer na prática
O custo da troca é bem estabelecido, então vale reduzir trocas desnecessárias, sem esperar que a ciência decida o resto:
- reservar blocos curtos e definidos para uma só tarefa, com celular fora do campo de visão e notificações silenciadas (notificações do celular);
- antes de interromper, anotar em uma linha onde parou e qual é o próximo passo;
- checar mensagens em horários combinados, em vez de a cada aviso;
- ter um papel ao lado para anotar pensamentos soltos e voltar a eles depois;
- fechar abas e aplicativos que não fazem parte da tarefa;
- quando a lista estiver grande demais para dar conta, priorizar e adiar, o que se relaciona com funções executivas e com procrastinação.
Nem toda interrupção é evitável: quem cuida de alguém, atende o público ou depende de chamados precisa manter canais abertos. Nesses casos, vale separar o que é de fato urgente do que é apenas rápido de responder, e combinar com colegas e familiares quais avisos podem furar o bloqueio.
Se a sensação é de estar sempre esgotado por causa das demandas, o quadro descrito em cansaço mental pode ajudar a distinguir sobrecarga de outros problemas.
Quando a dificuldade de foco merece avaliação
Dificuldade de concentração que vem desde a infância, aparece em vários contextos e persiste mesmo quando a rotina melhora merece avaliação, e a multitarefa não explica isso sozinha. O mesmo vale para a desatenção acompanhada de sono ruim, ansiedade ou desânimo. Veja TDAH em adultos e telas e TDAH.
Conclusão
Fazer tudo ao mesmo tempo raramente é a forma mais eficiente de trabalhar, e as trocas deixam um custo real em tempo, erros e cansaço. O efeito duradouro sobre a atenção é menos certo. Se você percebe que a dificuldade de foco é persistente e atrapalha o trabalho ou os estudos, a avaliação de TDAH em adultos pode ajudar a esclarecer se há algo além do excesso de demandas.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
Perguntas frequentes
Multitarefa funciona ou é mito?
Funciona apenas quando uma das tarefas é automática, como caminhar e conversar. Quando duas tarefas exigem atenção, o cérebro alterna entre elas, e cada troca gasta tempo e aumenta a chance de erro. Por isso a multitarefa raramente poupa tempo em tarefas exigentes.
Fazer muita multitarefa piora a atenção de forma permanente?
Não há prova disso. Alguns estudos associam multitarefa frequente a mais lapsos de atenção e esquecimento, mas replicações encontraram resultados inconsistentes e a direção de causa e efeito é desconhecida. Pessoas com mais dificuldade de atenção também podem ser mais atraídas por alternar estímulos.
Ouvir música ou podcast enquanto trabalho atrapalha?
Depende da tarefa e do conteúdo. Conteúdos falados podem competir com tarefas que exigem linguagem, como escrever ou ler, o que é uma hipótese razoável. Para tarefas mais automáticas, o efeito tende a ser menor. Vale testar o que funciona para você e observar se o rendimento e o cansaço mudam, sem generalizar para outras pessoas.
Como reduzir a troca de tarefas no trabalho?
Reserve blocos curtos para uma só tarefa, silencie notificações, cheque mensagens em horários definidos e anote o próximo passo antes de interromper. Experimentos mostram que pistas claras sobre qual tarefa fazer diminuem o custo de alternar. Ajustar o ambiente costuma ser mais eficaz do que depender apenas de força de vontade.
Quando a dificuldade de concentração pode ser TDAH?
Quando vem desde a infância, aparece em mais de um ambiente e prejudica o dia a dia mesmo com rotina e sono regulares. Sobrecarga, ansiedade, depressão e sono ruim imitam esse quadro. O diagnóstico é clínico e feito por profissional habilitado, e testes online não confirmam nem descartam o transtorno.
Referências
- PubMed: Executive control of cognitive processes in task switching (Rubinstein, Meyer e Evans, Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 2001)
- PubMed: Cognitive control in media multitaskers (Ophir, Nass e Wagner, PNAS, 2009)
- PubMed: Cognitive control in media multitaskers: Two replication studies and a meta-analysis (Wiradhany e Nieuwenstein, Attention, Perception, & Psychophysics, 2017)
- PubMed: Minds and brains of media multitaskers: Current findings and future directions (Uncapher e Wagner, PNAS, 2018)
- PubMed: Memory failure predicted by attention lapsing and media multitasking (Madore e colaboradores, Nature, 2020)




