Por que tanta gente desiste da terapia no meio do caminho? Veja o que a pesquisa mostra sobre abandono, adesão às tarefas e o que ajuda a continuar.
Começar a terapia é um passo, e continuar é outro. Muita gente começa animada, falta uma sessão, depois outra, e o processo se desfaz sem uma conversa de encerramento. Se isso já aconteceu com você, não está sozinho: a desistência precoce é um dos problemas mais estudados da psicoterapia. Entender por que ocorre e o que ajuda é útil tanto para quem está começando quanto para quem pensa em parar.
Em resumo: Cerca de uma em cada cinco pessoas abandona a psicoterapia antes do combinado, segundo metanálise de 669 estudos com 83.834 pacientes (taxa média de 19,7%). Os motivos variam, como expectativas diferentes da realidade, vínculo frágil, barreiras práticas ou piora. Ajudam conversar sobre dúvidas, acolher preferências, ajustar formato e ritmo e acompanhar o andamento do tratamento.
O que é abandono e com que frequência acontece
A metanálise de Swift e Greenberg (2012) reuniu 669 estudos, com 83.834 pacientes, e encontrou uma taxa média ponderada de abandono de 19,7%, algo próximo de um em cada cinco. Ela é menor do que as estimativas de duas décadas antes, mas ainda é considerável. Os números variam conforme a definição de abandono, o tipo de estudo, o serviço e a idade. A desistência foi mais frequente entre pessoas mais jovens, com diagnóstico de transtorno de personalidade ou transtorno alimentar, e atendidas por profissionais em formação. Em compensação, não variou conforme a abordagem terapêutica nem entre formato individual e em grupo.
Esses grupos com mais desistência pedem atenção redobrada dos serviços e dos profissionais ao vínculo e ao acompanhamento. O dado, por si só, não diz que o atendimento por quem está em formação seja pior, e sim que a continuidade merece cuidado especial em certos contextos.
Vale distinguir abandono de encerramento combinado. Parar porque os objetivos foram alcançados e houve conversa sobre isso é alta, tema de alta da terapia: quando e como encerrar. Abandono é sair sem essa conversa, antes que o tratamento cumpra o que se propôs.
Por que as pessoas desistem
Os estudos mostram fatores associados ao abandono, e os motivos individuais variam bastante. Alguns possíveis, que costumam ser conversados na clínica:
- Expectativas diferentes da realidade, como esperar alívio rápido e perceber que o processo exige tempo e esforço.
- Desconforto natural do processo, quando começam a aparecer temas difíceis ou situações antes evitadas.
- Vínculo frágil ou desencontros não conversados com o psicólogo, abordados em aliança terapêutica.
- Barreiras práticas, como horário, deslocamento e conciliação com o trabalho.
- Melhora parcial, que dá a impressão de que "já está bom", ou, ao contrário, ausência de melhora, que desanima.
- Vergonha, estigma ou receio do que os outros vão pensar.
- Acontecimentos de vida que mudam as prioridades.
Muitos desses motivos são resolvíveis quando aparecem na conversa, e quase nenhum se resolve quando ficam em silêncio.
O que a pesquisa sugere que ajuda
- Acolher preferências. Em uma metanálise com 53 estudos e mais de 16 mil pacientes, Swift e colaboradores (2018) observaram que acolher a preferência do cliente sobre o tratamento esteve associado a menos desistências (razão de chances de 1,79) e a resultados um pouco melhores (d = 0,28) em comparação com oferecer algo não preferido. Isso inclui formato, ritmo e tipo de abordagem, dentro do que for clinicamente adequado.
- Acompanhar o progresso. Na metanálise de de Jong e colaboradores (2021), o retorno do progresso ao terapeuta teve efeito pequeno favorável sobre o abandono (razão de chances de 1,19). É um efeito modesto, mas aponta que perceber a tempo quem não está evoluindo ajuda a manter o contato. Detalhes em psicoterapia com monitoramento de resultados.
- Remover barreiras práticas. Para algumas pessoas, o formato online reduz deslocamentos e facilita encaixar as sessões na rotina; veja terapia online funciona?. Não é a melhor opção para todos, e a escolha deve ser conversada.
- Alinhar objetivos e expectativas desde o início. Quando o caminho está claro, é mais fácil aguentar os trechos difíceis. Veja objetivos da terapia: como definir metas mensuráveis.
Adesão às tarefas entre as sessões
Adesão também se refere ao que se faz fora do consultório, como praticar uma técnica ou fazer registros. Kazantzis e colaboradores (2016) revisaram 17 estudos de TCC, com 2.312 pacientes, e encontraram relação entre cumprir as tarefas e melhores resultados, no fim do tratamento e no seguimento. Os autores sugerem que importa não só a quantidade, mas também a qualidade, isto é, a compreensão e a aplicação da habilidade. É uma relação, e não prova que fazer a tarefa seja a causa da melhora.
Na prática, tarefas precisam ser realistas e compreensíveis. Se não deu para fazer, diga e explique o motivo: isso orienta o ajuste, em vez de ser uma falha pessoal. Para ideias de como organizar o acompanhamento, veja como acompanhar sua evolução na terapia.
Se você está pensando em parar
- Converse sobre isso na sessão, mesmo que a decisão já esteja tomada. Essa conversa pode esclarecer o motivo e evitar uma saída que depois você lamente.
- Pergunte-se qual é o motivo: cansaço do processo, falta de melhora, desencontro com o profissional, dificuldade prática ou melhora suficiente.
- Considere alternativas a abandonar: pausar, mudar a frequência, mudar o formato, rever objetivos ou trocar de profissional.
- Se for parar, combine um encerramento: o que foi alcançado, o que fica por fazer e como retomar se precisar.
- Lembre que retornar depois é possível e comum.
Uma observação final sobre o tempo: não existe prazo universal para que a terapia "mostre serviço". Em vez de decidir no calor de uma semana ruim, vale combinar com o psicólogo um ponto de revisão, em que os dois olham juntos o que mudou e o que ainda falta. Decidir a partir dessa revisão tende a ser mais justo com você do que decidir a partir do cansaço do momento.
Se a vontade de parar vem junto com piora do humor, desesperança ou pensamentos de se machucar, avise o psicólogo ou um médico antes de decidir. O CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas, e em emergências o SAMU atende pelo 192.
Para levar daqui
Faltar e desanimar fazem parte da experiência de muita gente, e não definem se a terapia pode ou não funcionar para você. O que costuma fazer diferença é transformar a vontade de desistir em assunto de conversa. Se o seu caso é de insatisfação com o andamento, leia também terapia sem melhora: o que ajustar.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas abandonam a terapia?
Uma metanálise de 669 estudos, com 83.834 pacientes, encontrou taxa média de abandono de 19,7%, cerca de uma em cada cinco pessoas. O número varia conforme a definição de abandono, a idade, o diagnóstico, o serviço e a experiência do profissional. Não variou entre as abordagens terapêuticas nem entre atendimento individual e em grupo.
Por que as pessoas desistem da terapia?
Os motivos variam: expectativa de alívio rápido, desconforto com temas difíceis, vínculo frágil com o profissional, barreiras práticas de horário e deslocamento, melhora parcial, falta de melhora, vergonha ou acontecimentos de vida. A maioria dessas razões pode ser conversada com o psicólogo, o que muitas vezes permite ajustar o plano.
Posso escolher o formato ou o ritmo da terapia?
Você pode e deve conversar sobre isso. Uma metanálise de 2018 associou acolher preferências a menos desistências e a resultados um pouco melhores. As escolhas precisam ser clinicamente adequadas ao seu caso, e o psicólogo pode orientar sobre frequência, formato presencial ou online e tipo de intervenção.
Fazer as tarefas entre as sessões realmente importa?
Uma metanálise de estudos de TCC encontrou relação entre cumprir as tarefas e melhores resultados, e sugeriu que a qualidade, ou seja, entender e aplicar a habilidade, também conta. É uma associação, não prova de causa. Se a tarefa não é viável, diga ao psicólogo, pois ela pode ser ajustada.
O que fazer quando penso em parar a terapia?
Converse na própria sessão, mesmo que já tenha decidido. Identifique o motivo, considere alternativas como pausar, mudar a frequência ou o formato, rever objetivos ou trocar de profissional, e, se for parar, combine um encerramento. Voltar mais tarde é possível. Se houver piora importante, avise um profissional antes.
Referências
- PubMed: Premature discontinuation in adult psychotherapy: a meta-analysis (Swift e Greenberg, Journal of Consulting and Clinical Psychology, 2012)
- PubMed: The impact of accommodating client preference in psychotherapy: A meta-analysis (Swift e colaboradores, Journal of Clinical Psychology, 2018)
- PubMed: Using progress feedback to improve outcomes and reduce drop-out, treatment duration, and deterioration: A multilevel meta-analysis (de Jong e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2021)
- PubMed: Quantity and Quality of Homework Compliance: A Meta-Analysis of Relations With Outcome in Cognitive Behavior Therapy (Kazantzis e colaboradores, Behavior Therapy, 2016)




