Terapia Sem Melhora: o que Ajustar Quando os Resultados São Insuficientes
Psicoterapia

Terapia Sem Melhora: o que Ajustar Quando os Resultados São Insuficientes

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Está em terapia e não melhora? Veja um roteiro para revisar o tratamento (objetivos, ritmo, técnica, vínculo e contexto) e os ajustes possíveis.

Você está indo às sessões, fazendo o que foi combinado, e a melhora não vem, ou vem tão pouco que não muda a sua vida. É comum pensar que o problema é você, que seu caso é "difícil demais" ou que terapia não funciona para você. Na maior parte das vezes, o que existe é um tratamento que precisa de revisão, e revisar é parte do método, não sinal de fracasso.

Em resumo: Quando os resultados são insuficientes, o caminho é revisar de forma ordenada: se o problema foi bem compreendido, se os objetivos e o ritmo fazem sentido, se a abordagem e as técnicas se encaixam, se o vínculo com o psicólogo funciona e se fatores do contexto ou outros quadros interferem. Ajustar o plano ou pedir outra avaliação é um passo legítimo e frequente.

Primeiro, o que é "insuficiente"

Antes de ajustar, vale definir o critério. Insuficiente em relação a quê? Ao ponto de partida, aos objetivos combinados ou ao que se espera para o seu tipo de problema? Sem essa referência, a avaliação oscila com o humor da semana. Por isso é útil ter objetivos concretos e alguma forma de acompanhar o andamento, temas de objetivos da terapia: como definir metas mensuráveis e de melhora clinicamente significativa. Para entender prazos habituais, veja como saber se a terapia está funcionando e quanto tempo dura.

Se a sensação de estagnação vier com piora, pense também em terapia estagnada ou piorando: sinais de dificuldade.

Um roteiro de revisão em seis perguntas

  1. O problema foi bem compreendido? Às vezes há mais de um quadro ao mesmo tempo, como ansiedade e depressão, sono ruim, uso de álcool, trauma ou questões de atenção, e tratar só uma parte mantém o conjunto. Reavaliar o caso é um ajuste, não uma volta ao zero.
  2. Os objetivos continuam claros e são seus? Metas vagas, ou que mudaram sem serem ditas, tornam difícil perceber progresso.
  3. O ritmo está adequado? Frequência das sessões, duração do processo e intervalo entre elas podem ser pouco para a intensidade do problema.
  4. A abordagem e as técnicas combinam com o problema e com você? Estão sendo aplicadas com consistência? As tarefas entre as sessões são realistas ou viraram fonte de culpa?
  5. A relação terapêutica está funcionando? Falta confiança, há assuntos que ficaram sem ser ditos ou tensões não conversadas? Veja aliança terapêutica.
  6. O que está acontecendo fora da sala? Mudanças de vida, estresse crônico, doenças físicas, dor, medicamentos e barreiras práticas pesam no resultado.

Que ajustes são possíveis

AjusteQuando faz sentidoExemplo
Rever objetivos e prazosMetas vagas ou desatualizadasTrocar "ficar menos ansioso" por metas observáveis
Mudar ritmoIntensidade do problema maior que a doseSessões mais próximas por um período
Mudar técnicas dentro da abordagemA estratégia atual não engrenouTrabalhar o comportamento antes do pensamento
Mudar de abordagemVárias estratégias tentadas sem efeitoConsiderar outra linha com evidência para o problema
Avaliação médica ou outra avaliaçãoSuspeita de quadro associadoConversar com o médico sobre sono, dor ou medicação
Segunda opinião ou encaminhamentoDúvida persistente ou limite do profissionalConsultar outro psicólogo

Algumas observações. Mudar de abordagem não é garantia de melhora: na depressão, a metanálise em rede de Cuijpers e colaboradores (2021) encontrou poucas diferenças entre as principais psicoterapias, de modo que trocar a "marca" da terapia, por si só, não resolve. O que costuma pesar mais é o encaixe entre o plano, o problema e a pessoa. Sobre medicamentos, a decisão é sempre do médico: converse com ele, sem iniciar, trocar ou parar nada por conta própria. E, quando houver dúvidas sobre atenção, memória ou funções executivas atrapalhando o tratamento, uma avaliação neuropsicológica pode ajudar a entender o que está em jogo. Quem faz cada papel está em psicólogo, psiquiatra ou neuropsicólogo.

O que a pesquisa sugere sobre ajustar com base em dados

Estudos sobre retorno de progresso mostram que acompanhar a evolução e agir quando ela foge do esperado tem valor modesto, mas consistente. Na metanálise de de Jong e colaboradores (2021), com 58 estudos, o efeito sobre os sintomas foi pequeno, inclusive em casos fora do esperado (d = 0,17). Shimokawa e colaboradores (2010) observaram que ferramentas de apoio à decisão clínica e o retorno do progresso ao terapeuta ajudaram a prevenir o insucesso do tratamento. Não existe fórmula que garanta resultado, mas há razões para não esperar passivamente.

Reconhecer o que não está funcionando também faz parte da boa prática. Linden (2013) argumenta que identificar efeitos adversos e piora do tratamento é característica de bons terapeutas e de bons tratamentos, e que distinguir não resposta de deterioração é parte desse cuidado. Quando houve algum desencontro na relação, a revisão de Eubanks e colaboradores (2018) encontrou associação moderada entre reparar rupturas na aliança e melhores resultados (r = 0,29).

Como levar o assunto ao psicólogo

Muita gente espera "o momento certo" e continua por meses sem falar. Dizer que você não percebe avanço é informação clínica valiosa. Algumas formas de abrir a conversa:

  • "Sinto que não estou avançando como esperava. Podemos rever os objetivos e o que imaginávamos para este momento?"
  • "Há algo que eu não consegui dizer e que talvez esteja atrapalhando."
  • "O que você pensa em mudar no plano, e por quê?"
  • "Faria sentido ouvir outra opinião ou fazer outra avaliação?"

Um psicólogo cuidadoso recebe essas falas como parte do trabalho. Se a conversa não for acolhida, ou se as respostas forem sempre vagas, vale reconsiderar. Perguntas úteis estão em perguntas para fazer ao psicólogo sobre método e evidência.

Quando buscar ajuda sem esperar a revisão

Se o sofrimento aumentar de forma importante, se você deixar de conseguir cuidar de si ou se surgirem pensamentos de se machucar ou de não querer viver, procure ajuda imediatamente: o CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas, e em emergências o SAMU atende pelo 192.

Para levar daqui

Falta de melhora é um dado, não uma sentença. Ele pede uma revisão com perguntas claras sobre compreensão do caso, objetivos, ritmo, técnicas, vínculo e contexto. Se você deseja iniciar ou retomar a psicoterapia com terapia cognitivo-comportamental, presencial ou online, combinar desde o começo como e quando o plano será revisado é uma conversa que vale ter com qualquer profissional.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Quanto tempo esperar antes de achar que a terapia não está funcionando?

Não há prazo único, pois depende do problema, da abordagem e do ritmo. Em vez de esperar uma data, combine com o psicólogo objetivos e momentos de revisão. Se na revisão não houver sinais de avanço, ou se houver piora, é hora de rever o plano e não de simplesmente esperar mais.

Trocar de abordagem resolve quando a terapia não ajuda?

Nem sempre. Em depressão, uma metanálise em rede de 2021 encontrou poucas diferenças entre as principais psicoterapias, então trocar de linha não garante melhora. Pesa mais o encaixe entre problema, plano, vínculo e contexto. A troca pode fazer sentido depois de uma revisão do caso e dos ajustes dentro da abordagem.

Posso trocar de psicólogo sem ofender o atual?

Pode. É um direito seu e não precisa ser visto como ofensa. Se possível, converse antes com o psicólogo sobre o que está faltando, pois isso pode esclarecer dúvidas ou ajustar o plano. Se mesmo assim a confiança não existir, procurar outro profissional é uma decisão legítima.

A falta de melhora pode indicar que há outro problema não identificado?

Sim, é uma possibilidade. Quadros associados, como insônia, uso de álcool, dor, questões de atenção ou condições médicas, podem manter os sintomas. Por isso, uma das etapas da revisão é reavaliar o caso, o que às vezes inclui conversar com um médico ou fazer outra avaliação.

Devo mudar a medicação se a terapia não está ajudando?

Essa decisão é sempre do médico. Não inicie, troque ou pare medicamentos por conta própria. Você pode conversar com o seu médico sobre a evolução e, com a sua autorização, o psicólogo também pode se comunicar com ele para que o cuidado seja coordenado.

Referências

  1. PubMed: Using progress feedback to improve outcomes and reduce drop-out, treatment duration, and deterioration: A multilevel meta-analysis (de Jong e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2021)
  2. PubMed: Enhancing treatment outcome of patients at risk of treatment failure: meta-analytic and mega-analytic review of a psychotherapy quality assurance system (Shimokawa e colaboradores, Journal of Consulting and Clinical Psychology, 2010)
  3. PubMed: How to define, find and classify side effects in psychotherapy: from unwanted events to adverse treatment reactions (Linden, Clinical Psychology and Psychotherapy, 2013)
  4. PubMed: Alliance rupture repair: A meta-analysis (Eubanks e colaboradores, Psychotherapy, 2018)
  5. PubMed: Psychotherapies for depression: a network meta-analysis covering efficacy, acceptability and long-term outcomes of all main treatment types (Cuijpers e colaboradores, World Psychiatry, 2021)

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