Objetivos da Terapia: Como Definir Metas Claras e Mensuráveis com o Psicólogo
Psicoterapia

Objetivos da Terapia: Como Definir Metas Claras e Mensuráveis com o Psicólogo

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Quer ficar bem, mas não sabe que meta colocar na terapia? Veja como transformar um desejo vago em objetivo mensurável, com exemplos e armadilhas comuns.

"Quero ficar bem" é um desejo legítimo, mas ainda não é uma meta. É difícil saber, daqui a dois meses, se você chegou lá. Quando o objetivo é descrito em termos concretos, a terapia ganha direção, o psicólogo e o paciente sabem para onde caminham e fica mais fácil perceber o que está funcionando e o que precisa mudar.

Em resumo: Objetivos terapêuticos mensuráveis descrevem o que você quer mudar em termos observáveis: o que fará, com que frequência, em quais situações e em que prazo de revisão. São construídos em conjunto com o psicólogo e revisados ao longo do processo. Pesquisas associam o acordo entre paciente e terapeuta sobre as metas a melhores resultados da psicoterapia.

Por que os objetivos importam

Uma metanálise de Tryon e Winograd (2011) reuniu estudos publicados entre 2000 e 2009. Com 15 estudos e 1.302 pacientes, a concordância sobre os objetivos teve relação com o resultado, com tamanho de efeito de 0,34. Em outra análise, com 19 estudos e 2.260 pacientes, a colaboração ativa entre as partes teve correlação de 0,33 com os resultados. São associações, e não provas de que combinar metas cause melhora, mas fazem sentido clinicamente: quem sabe o que busca se engaja mais, e o profissional consegue escolher melhor as intervenções.

Objetivos claros também servem a outras funções: permitem acompanhar o progresso, como discutido em psicoterapia com monitoramento de resultados, ajudam a decidir quando rever o plano e orientam a conversa sobre o momento de encerrar, tema de alta da terapia: quando e como encerrar.

Do desejo à meta mensurável

Uma boa forma de pensar é em três degraus: o desejo ou valor, o objetivo e a meta observável.

DesejoObjetivoMeta mensurável (exemplo)
Não sofrer tanto com a ansiedadeVoltar a usar transporte públicoFazer três trajetos por semana durante oito semanas
Dormir melhorTer horários regulares de sonoDeitar até 23h em cinco noites por semana
Me relacionar melhorAprender a dizer nãoRecusar um pedido por semana e registrar como foi

Os exemplos acima são ilustrativos. A meta real depende do seu caso, e deve ser desafiadora o bastante para importar e possível o bastante para não desanimar. Em um caso hipotético, alguém que evita reuniões por medo de se expor pode começar com a meta de apenas fazer uma pergunta curta por reunião, e só depois avançar para apresentar um tema. Pequenos degraus mantêm a motivação e geram informação sobre o que ajuda de fato.

Metas de resultado e de processo

As metas de resultado descrevem a mudança desejada, como reduzir as crises de pânico ou voltar a trabalhar presencialmente. As de processo descrevem o que fazer para chegar lá, como praticar um exercício três vezes por semana ou conversar com um familiar sobre um assunto difícil. Nem sempre o resultado depende só de você, mas o processo costuma depender. Combinar os dois evita que a terapia pareça parada quando a mudança ainda não apareceu, mas você está fazendo a sua parte.

Passo a passo para construir objetivos

  1. Comece pelo que incomoda e pelo que importa: o que você quer ter, fazer ou ser capaz de fazer de novo?
  2. Transforme em comportamentos observáveis: o que alguém veria você fazer quando o objetivo for alcançado?
  3. Defina uma medida simples, como frequência, nota de 0 a 10 ou tempo gasto, e o ponto de partida.
  4. Escolha um prazo de revisão, que não é prazo de cura, mas um momento para olhar juntos o andamento.
  5. Priorize: poucos objetivos por vez rendem mais do que uma lista longa.
  6. Combine o que fazer se o objetivo se mostrar grande demais ou pouco relevante.

Para ver como acompanhar esses indicadores entre as sessões, leia como acompanhar sua evolução na terapia.

E quando o objetivo é um sentimento?

Muitos objetivos são emocionais: sentir-se menos triste, menos culpado, mais confiante. Sentimentos são reais, mas difíceis de medir diretamente. Duas saídas ajudam. A primeira é dar uma nota de 0 a 10 à intensidade, sempre nas mesmas condições, para comparar ao longo do tempo. A segunda é perguntar o que você faria se aquele sentimento estivesse menor: ligaria para um amigo, aceitaria um convite, voltaria a estudar. Essa ação vira a meta observável. Assim, "me sentir mais confiante" pode virar "falar ao menos uma vez em uma reunião por semana", com uma nota de confiança antes e depois.

Armadilhas comuns

  • Metas que dependem de outras pessoas, como "que meu chefe me respeite". É melhor definir o que está ao seu alcance: pedir uma reunião, estabelecer limites, buscar alternativas.
  • Metas de eliminação total, como "nunca mais sentir ansiedade". Emoções fazem parte da vida, e o foco costuma ser mudar a relação com elas e retomar o que elas impediam. Veja ansiedade tem cura?.
  • Metas perfeccionistas ou rígidas, que ignoram imprevistos e transformam um dia ruim em "fracasso".
  • Metas de "parar de pensar" em algo. Tentar eliminar pensamentos à força costuma ser frustrante; vale preferir metas como retomar uma atividade mesmo com o pensamento presente. Veja pensamentos intrusivos e ruminação.
  • Listas longas demais. Trabalhar tudo ao mesmo tempo dilui o foco.
  • Metas impostas por outros. Se o objetivo é de quem encaminhou, mas não seu, o engajamento tende a cair. É legítimo discutir isso com o psicólogo.

Quando os objetivos mudam

Metas não são contratos. Ao longo do processo, você descobre o que realmente importa, alguns objetivos são alcançados, outros perdem sentido e novos aparecem. Rever objetivos é parte da boa prática, e a pesquisa sobre aliança mostra que a concordância sobre metas e tarefas é um dos componentes do vínculo (veja aliança terapêutica). Se os objetivos estão claros e o progresso não aparece, o próximo passo é o roteiro de revisão de terapia sem melhora: o que ajustar.

Para levar daqui

Uma pergunta simples para a primeira ou para a próxima sessão: "quais seriam nossos objetivos para os próximos dois meses, e como vamos saber que estamos chegando lá?". Se quiser saber o que costuma acontecer no início de um processo, veja primeira sessão de terapia. Em qualquer abordagem, a definição conjunta de objetivos é uma das conversas que vale ter desde o início.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Como definir objetivos na terapia?

Comece pelo que incomoda e pelo que importa para você, transforme isso em comportamentos observáveis, defina uma medida simples e um ponto de partida, escolha um prazo de revisão e priorize poucos objetivos por vez. Tudo isso é construído em conjunto com o psicólogo e pode ser ajustado ao longo do tratamento.

Posso mudar os objetivos da terapia no meio do processo?

Pode e deve, se fizer sentido. À medida que você entende melhor o problema, alguns objetivos são alcançados, outros perdem relevância e novos aparecem. O importante é conversar com o psicólogo, atualizar o que foi combinado e manter clareza sobre o que se busca em cada fase.

Qual a diferença entre objetivo e meta mensurável?

O objetivo descreve a direção, por exemplo voltar a usar transporte público. A meta mensurável especifica o quanto e até quando, por exemplo fazer três trajetos por semana durante oito semanas. A segunda permite verificar se houve avanço e ajustar o plano, sem depender apenas da impressão do momento.

E se eu não souber o que quero da terapia?

É comum, e saber o que você quer pode ser parte do trabalho inicial. O psicólogo pode ajudar com perguntas sobre o que mudaria na sua vida, o que está difícil e o que gostaria de voltar a fazer. Os objetivos podem começar amplos e ser refinados nas primeiras sessões.

Metas de sintomas bastam, como reduzir a ansiedade?

Ajudam, mas costumam funcionar melhor combinadas com metas de funcionamento, como retomar atividades e relações. Sintomas podem melhorar sem que a vida volte ao que se desejava, e o contrário também acontece. Acompanhar os dois tipos de indicador dá uma visão mais completa da evolução.

Referências

  1. PubMed: Goal consensus and collaboration (Tryon e Winograd, Psychotherapy, 2011)
  2. PubMed: The alliance in adult psychotherapy: A meta-analytic synthesis (Flückiger e colaboradores, Psychotherapy, 2018)
  3. PubMed: Alliance rupture repair: A meta-analysis (Eubanks e colaboradores, Psychotherapy, 2018)

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