Mounjaro, Ozempic e Compulsão Alimentar: O que a Ciência Sabe
Comportamento Compulsivo

Mounjaro, Ozempic e Compulsão Alimentar: O que a Ciência Sabe

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Mounjaro e Ozempic podem reduzir a compulsão alimentar, mas os estudos são preliminares e o remédio não trata os gatilhos. Entenda os limites e o papel da TCC.

Mounjaro (tirzepatida) e Ozempic (semaglutida) podem diminuir os episódios de compulsão alimentar enquanto são usados, porque reduzem o apetite e aumentam a saciedade. A evidência, porém, ainda é preliminar. Esses remédios não são aprovados no Brasil para tratar o transtorno de compulsão alimentar (TCAP) e não resolvem, sozinhos, o que dispara os episódios. Por isso a compulsão pode voltar quando o remédio é suspenso, e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) continua sendo o tratamento psicológico de primeira linha.

Este texto trata dos aspectos psicológicos. Indicação, dose e suspensão de qualquer medicamento são decisões do médico que acompanha você.

Mounjaro e Ozempic Diminuem a Compulsão Alimentar?

Os estudos indicam que sim, pelo menos a curto prazo. Uma metanálise publicada em 2026 na revista eClinicalMedicine reuniu 25 ensaios clínicos randomizados, com 8.069 participantes com sobrepeso ou obesidade. Nos grupos que usaram agonistas de GLP-1, como a semaglutida, houve redução da compulsão alimentar, da perda de controle ao comer e do comer emocional em comparação com os grupos de controle. Os próprios autores, no entanto, classificam essa evidência como preliminar.

Os limites desses estudos importam para quem está decidindo o que fazer:

  • Só 3 dos 25 ensaios recrutaram pessoas com diagnóstico de TCAP ou com compulsão alimentar identificada
  • A liraglutida foi a mais estudada, em 12 ensaios; a semaglutida apareceu em 6, e a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, em apenas 2
  • Todos os ensaios tiveram alto risco de viés ou algumas preocupações de qualidade, e a maioria foi conduzida ou financiada pela indústria farmacêutica
  • Os tratamentos duraram de 6 a 104 semanas, e quase não há dados sobre o que acontece com a compulsão depois que o remédio é suspenso

Compulsão Alimentar Depois do Mounjaro ou do Ozempic

Esses remédios agem sobre o apetite. Segundo a Anvisa, a semaglutida reduz o peso ao induzir saciedade e diminuir a sensação de fome, e a tirzepatida regula o apetite e reduz a ingestão de alimentos. A compulsão, porém, costuma ter outros motores: dietas rígidas, emoções difíceis, cansaço e autocrítica. Quando o remédio abaixa o volume da fome, esses gatilhos continuam presentes, só que mais silenciosos.

A metanálise de 2026 lembra que o reganho de peso e a volta do apetite costumam acontecer depois da suspensão desses tratamentos, e que a recaída da compulsão ainda precisa ser estudada. Por isso, é possível passar meses sem episódios e vê-los voltar quando o remédio é reduzido ou interrompido, principalmente se os gatilhos não foram trabalhados. Se esse é o seu medo, leia sobre parar o Mounjaro ou o Ozempic com medo de engordar.

O Risco de Comer Pouco Demais

A mesma metanálise encontrou aumento da restrição cognitiva, isto é, do controle consciente sobre o que se come, em quem usou os medicamentos. Os autores dizem que ainda não se sabe se esse controle é flexível e saudável ou rígido, do tipo que costuma alimentar a compulsão. Para quem tem TCAP, passar o dia comendo muito pouco pode preparar o próximo episódio, principalmente quando o efeito do remédio diminui.

Fique atento a estes sinais:

  • Pular refeições por falta de fome e perder o controle à noite
  • Criar regras rígidas sobre o que pode ou não comer
  • Sentir medo intenso de voltar a comer normalmente
  • Provocar vômito, usar laxantes ou fazer jejum para compensar, o que pede avaliação profissional com urgência

Mounjaro e Ozempic São Aprovados para Compulsão Alimentar?

Não. Segundo a Anvisa, o Ozempic é indicado para o controle do diabetes tipo 2. O Wegovy, que também é semaglutida, é indicado para o controle do peso em adultos com obesidade, ou com sobrepeso e pelo menos uma doença relacionada ao peso. O Mounjaro é indicado para o diabetes tipo 2 e para o controle crônico do peso nas mesmas condições. O transtorno de compulsão alimentar não está entre as indicações aprovadas desses medicamentos.

Isso não impede que o médico prescreva o remédio para obesidade ou diabetes a alguém que também tem compulsão. Nesses casos, a redução dos episódios pode ser um efeito bem-vindo, mas não substitui o tratamento do transtorno. Não comece, ajuste ou pare o medicamento por conta própria.

Qual o Tratamento Psicológico da Compulsão Alimentar?

A diretriz de 2023 da Associação Americana de Psiquiatria recomenda que o transtorno de compulsão alimentar seja tratado com TCC focada em transtornos alimentares ou com terapia interpessoal, em formato individual ou em grupo. Medicamentos aparecem como sugestão para quem prefere essa via ou não melhorou só com a psicoterapia, e essa escolha é sempre do médico.

Na TCC, o trabalho com quem usa Mounjaro ou Ozempic envolve:

  • Regularizar a alimentação, com refeições previsíveis combinadas com o médico e o nutricionista, mesmo com pouca fome
  • Mapear os gatilhos de cada episódio: a situação, o pensamento, a emoção e o que a comida estava aliviando
  • Construir outras formas de lidar com estresse, tédio, tristeza e solidão
  • Trabalhar a autocrítica, a imagem corporal e o medo de engordar
  • Montar um plano de prevenção de recaída para a fase de redução ou suspensão do remédio

Os autores da metanálise citam relatos clínicos, ainda sem comprovação, de que o remédio pode reduzir justamente a vontade de comer que a TCC usaria para treinar novas respostas. Por isso, vale planejar a terapia pensando também na fase sem o medicamento.

O ciclo de restrição, gatilho, episódio e culpa está explicado em compulsão alimentar em adultos, e os efeitos emocionais das canetas, em canetas emagrecedoras e saúde emocional.

Médico e Psicólogo: Quem Faz o Quê

  • Médico, como endocrinologista, clínico ou psiquiatra: diagnostica doenças, indica, ajusta e suspende o remédio e acompanha os efeitos colaterais
  • Psicólogo: avalia o padrão alimentar e emocional, trata a compulsão com TCC e prepara a transição quando o remédio for reduzido
  • Nutricionista: organiza uma alimentação regular e sem restrição rígida

O ideal é que esses profissionais conversem entre si. O psicólogo não prescreve nem suspende remédios, e o médico não precisa carregar sozinho a parte emocional do tratamento.

Quando Procurar Ajuda

  • Os episódios de comer sem controle continuaram mesmo com o remédio
  • Você tem medo de parar o medicamento porque a compulsão pode voltar
  • Você passa o dia quase sem comer e perde o controle à noite
  • A culpa, a vergonha ou a tristeza depois de comer estão intensas

Se surgirem pensamentos de morrer, ligue para o CVV no 188, ligação gratuita e 24 horas, ou acesse cvv.org.br. Para saber como funciona o cuidado com a comida e outros hábitos difíceis de controlar, veja a página de comportamentos compulsivos.

Atendo adultos com compulsão alimentar em Belo Horizonte, no bairro Planalto, e online, com TCC e em diálogo com o médico que acompanha o uso do medicamento.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Mounjaro tira a compulsão alimentar?

Pode reduzir os episódios enquanto é usado, porque diminui o apetite, mas a evidência ainda é preliminar. Uma metanálise de 2026 com 25 ensaios clínicos encontrou redução da compulsão com agonistas de GLP-1, mas só 2 desses ensaios testaram a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.

Ozempic é indicado para compulsão alimentar?

Não. Segundo a Anvisa, o Ozempic é indicado para o diabetes tipo 2, e o transtorno de compulsão alimentar não está entre as indicações aprovadas de Ozempic, Wegovy ou Mounjaro. Qualquer uso desses remédios é decisão do médico.

O que a ciência sabe sobre a compulsão depois de parar o Ozempic?

Quase nada ainda. A metanálise de 2026 com 25 ensaios clínicos observou que os tratamentos duraram no máximo 104 semanas e que quase não há dados sobre a compulsão depois da suspensão. Os autores lembram que o reganho de peso e a volta do apetite são comuns após parar o remédio e que a recaída da compulsão ainda precisa ser estudada.

Qual o tratamento psicológico para compulsão alimentar?

A diretriz de 2023 da Associação Americana de Psiquiatria recomenda a terapia cognitivo-comportamental focada em transtornos alimentares ou a terapia interpessoal, individual ou em grupo. Medicamentos podem ser associados quando o médico indicar.

Referências

  1. eClinicalMedicine (PMC): Emptage I, et al. The effectiveness of GLP-1 receptor agonists on binge eating in patients with obesity, systematic review and meta-analysis (2026)
  2. American Journal of Psychiatry (PubMed): The American Psychiatric Association Practice Guideline for the Treatment of Patients With Eating Disorders (2023)
  3. Anvisa: Wegovy (semaglutida), indicação aprovada
  4. Anvisa: Mounjaro (tirzepatida), nova indicação

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