Ruminação e Preocupação no Tratamento: por que o Foco É o Processo, Não o Conteúdo
Psicoterapia

Ruminação e Preocupação no Tratamento: por que o Foco É o Processo, Não o Conteúdo

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Ruminação e preocupação são tratadas como processos: o tema muda, o ciclo fica. Veja por que isso importa na formulação e na escolha das técnicas.

"Eu sei que estou exagerando, mas não consigo parar de pensar nisso." Muita gente que sofre com preocupação e com o hábito de remoer pensamentos descreve algo assim, e é uma pista importante: o problema nem sempre está no que se pensa, e sim no jeito repetitivo de pensar. É por isso que, na terapia, esses padrões costumam ser tratados como processos.

Em resumo: Ruminação e preocupação são tratadas como processos porque o conteúdo dos pensamentos muda, mas o modo repetitivo de pensar persiste e aparece em vários transtornos. Na formulação do caso, o psicólogo investiga quando esse padrão começa, o que a pessoa acredita que ele faz por ela, o que ele custa e o que ela faz em seguida. É essa função que orienta a escolha das intervenções.

O conteúdo muda, o processo permanece

Em um dia a preocupação é com dinheiro, no outro com a saúde, depois com o desempenho no trabalho. Na depressão, o repasse constante de falhas e perdas ganha outros temas ao longo das semanas. Nas pesquisas, esses padrões costumam ser reunidos sob o nome de pensamento negativo repetitivo, que inclui a preocupação, a ruminação e formas de pensar perseverativo independentes do tema.

O que importa para o tratamento é que o processo é parecido entre quadros diferentes. McLaughlin e Nolen-Hoeksema (2011) mostraram que a ruminação ajudou a explicar a ligação entre sintomas de depressão e de ansiedade em adolescentes e adultos, e concluíram que ela merece ser alvo de abordagens transdiagnósticas. Em uma metanálise de 114 estudos, Aldao e colaboradores (2010) encontraram a maior associação com sintomas justamente para a ruminação, entre as estratégias de regulação emocional examinadas. Para a definição e o que fazer no momento em que os pensamentos se repetem, há o texto sobre pensamentos intrusivos e ruminação. Aqui o interesse é outro: por que isso entra na formulação.

O que o psicólogo procura entender

Dois pacientes que remoem podem ter motivos muito diferentes para isso. Por essa razão, a investigação costuma incluir perguntas como:

  • Gatilho: o que costuma disparar o ciclo? Uma situação, uma lembrança, o fim do dia?
  • Forma: o pensamento é sobre o passado ou sobre o futuro? É abstrato ("por que eu sou assim?") ou concreto ("o que eu faço amanhã?")?
  • Crença sobre a utilidade: a pessoa acredita que remoer a ajuda a entender, a se preparar ou a evitar um erro?
  • Função: o ciclo tenta resolver um problema, adiar uma ação, evitar uma emoção ou buscar certeza?
  • Custo: o que ele tira do sono, da atenção, das relações e das atividades?
  • Resposta: o que a pessoa faz em seguida (pesquisar, pedir garantias, checar, adiar, se distrair)?

Um exemplo hipotético

Duas pessoas relatam a mesma coisa: passam a noite revendo uma reunião em que se sentiram mal. Na primeira, o repasse é uma tentativa de se preparar para a próxima, e ela acredita que, se parar, repetirá o erro. Na segunda, o repasse vem com autocrítica dura e a leva a evitar novas reuniões. Para a primeira, o foco pode ser transformar a preparação em um plano com hora e limite. Para a segunda, retomar as reuniões de forma gradual e mudar o tom do diálogo interno. O comportamento visível, remoer, é igual, mas a função e o custo são diferentes.

Como a função orienta a escolha da intervenção

A mesma etiqueta de "preocupação excessiva" pode pedir caminhos diferentes. A tabela abaixo traz exemplos ilustrativos, e não uma regra fixa: a decisão depende da formulação de cada pessoa.

Função provávelComo costuma aparecerCaminho possível
Resolver um problema realO pensamento poderia virar um plano, mas gira em círculosResolução estruturada de problemas
Evitar agir ou sentirPensar substitui fazerRetomada gradual das ações evitadas
Buscar certeza sobre o futuroRepetição de cenários e pedidos de garantiaReduzir checagens e praticar conviver com a incerteza
Autocrítica e repasse de falhasPensamento abstrato, de tom culpadoTreino de pensar de forma mais concreta

Perceba que nenhuma linha da tabela diz "pare de pensar". Tentar suprimir pensamentos é uma das estratégias que Aldao e colaboradores (2010) encontraram associadas a mais sintomas, e muitas abordagens atuais trabalham com a mudança da relação com o pensamento, e não com a sua eliminação.

O que a pesquisa mostra

Uma metanálise de ensaios randomizados com 36 estudos e 3.307 participantes (Spinhoven e colaboradores, 2018) analisou o efeito de tratamentos para depressão sobre o pensamento negativo repetitivo. Intervenções que focam explicitamente nesse processo, como a TCC focada em ruminação, mostraram efeitos médios a grandes sobre ele, e a associação entre reduzir o pensamento repetitivo e melhorar a depressão foi significativa apenas nos tratamentos focados nesse processo. Os autores pedem estudos que testem melhor esse mecanismo.

Em outro estudo, Topper e colaboradores (2017) selecionaram 251 adolescentes e jovens adultos com níveis elevados de preocupação e ruminação e ofereceram um treinamento cognitivo-comportamental de seis semanas, em grupo ou pela internet, comparado com lista de espera. Houve redução do pensamento repetitivo e dos sintomas de ansiedade e depressão, mantida em 12 meses, e a redução do pensamento repetitivo ajudou a explicar a menor ocorrência de depressão e de ansiedade generalizada no período.

Limites e cuidados

Esses resultados são promissores, mas pedem cautela. O estudo de Topper foi de prevenção, com participantes jovens, 83,7% do sexo feminino, medidas de autorrelato e comparação com lista de espera. Parte das evidências é correlacional, e mediação estatística não equivale a prova de causa. Além disso, nem todo pensamento repetitivo é igual: pensamentos intrusivos ligados a rituais, como no TOC, e ruminação após um evento traumático podem pedir outros desenhos de tratamento. Se a dúvida envolver rituais e compulsões, veja TOC: sintomas, tipos e tratamento.

Para observar no dia a dia

Se os seus pensamentos giram em círculos, vale notar menos o que dizem e mais o que fazem por você e o que custam. Essa observação é o ponto de partida da formulação de caso e de uma terapia mais precisa. Para outros processos que aparecem junto, leia esquiva e comportamentos de segurança e tolerância ao desconforto emocional.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Se o pensamento é exagerado, por que não basta contestá-lo?

Para algumas pessoas, avaliar as evidências de um pensamento ajuda. Mas quando o problema é a repetição, discutir o conteúdo pode virar mais uma rodada do mesmo ciclo, já que o tema muda e o padrão volta. O psicólogo avalia, caso a caso, se vale mais trabalhar o conteúdo, a função do ciclo ou o que a pessoa faz depois dele.

Preocupação e ruminação são a mesma coisa?

São parentes próximas. A preocupação costuma olhar para ameaças futuras e a ruminação para o passado, as causas e as consequências de falhas e perdas. Na pesquisa, ambas são reunidas sob o nome de pensamento negativo repetitivo, porque compartilham a forma repetitiva e improdutiva. Uma pessoa pode apresentar as duas, e o tratamento considera o que cada uma faz por ela.

Tentar não pensar no assunto ajuda?

Em geral, não como estratégia principal. A metanálise de Aldao e colaboradores encontrou a supressão entre as estratégias associadas a mais sintomas de psicopatologia. Isso é uma associação, e não prova de causa, mas combina com a prática clínica: a tendência é buscar mudar a relação com o pensamento, e não eliminá-lo à força.

Esse foco no processo serve para qualquer transtorno?

A evidência é mais sólida para depressão e ansiedade. Em outros quadros, como TOC ou estresse pós-traumático, o pensamento repetitivo pode ter características próprias e pedir abordagens específicas. Por isso a avaliação individual vem antes: ela diferencia o tipo de pensamento, o que o dispara e que tratamento tem melhor respaldo para cada situação.

Em quanto tempo o pensamento repetitivo diminui?

Não dá para prometer prazo. No estudo de prevenção de Topper e colaboradores, um treinamento de seis semanas reduziu o pensamento repetitivo em jovens com níveis elevados, mas esse resultado vale para aquele grupo e aquele formato. O ritmo de cada pessoa depende do tipo de pensamento, do contexto de vida, do sono e da regularidade com que as estratégias são praticadas.

Referências

  1. PubMed: The effects of cognitive-behavior therapy for depression on repetitive negative thinking: A meta-analysis (Spinhoven e colaboradores, Behaviour Research and Therapy, 2018)
  2. PubMed: Prevention of anxiety disorders and depression by targeting excessive worry and rumination in adolescents and young adults: A randomized controlled trial (Topper e colaboradores, Behaviour Research and Therapy, 2017)
  3. PubMed: Rumination as a transdiagnostic factor in depression and anxiety (McLaughlin e Nolen-Hoeksema, Behaviour Research and Therapy, 2011)
  4. PubMed: Emotion-regulation strategies across psychopathology: A meta-analytic review (Aldao e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2010)

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