Tolerância ao Desconforto Emocional: por que Importa na Terapia e o que se Treina
Psicoterapia

Tolerância ao Desconforto Emocional: por que Importa na Terapia e o que se Treina

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Quando o desconforto parece insuportável, a gente tende a fugir dele. Entenda o que é tolerância ao desconforto, como entra na terapia e o que se treina.

"Eu não suporto essa sensação" é uma frase que psicólogos ouvem com frequência, na ansiedade, na raiva, na tristeza, na vontade de comer sem fome ou de abrir o celular a noite toda. Por trás dela, a pesquisa descreve um processo chamado tolerância ao desconforto, e ele tem um papel importante em como o tratamento é planejado.

Em resumo: Tolerância ao desconforto é a capacidade de permanecer em contato com sensações, emoções e pensamentos desagradáveis sem recorrer de imediato a algo para escapar deles. Quando é baixa, a pessoa tende a evitar, ruminar ou agir por impulso para aliviar o mal-estar, e isso mantém vários problemas. É um processo estudado em diferentes quadros, com definições ainda variadas, e a terapia o trabalha de forma gradual.

O que é, e o que não é

Tolerar desconforto não é aguentar sofrimento calado, nem fingir que está tudo bem, nem se submeter a situações que fazem mal. É uma habilidade mais específica: sentir uma emoção ou uma sensação intensa, reconhecer que é desagradável e ainda assim conseguir escolher o que fazer, em vez de ser empurrado para a ação que faz o mal-estar acabar mais rápido.

Na literatura, Leyro, Zvolensky e Bernstein (2010) revisaram o tema e o descreveram como um candidato a fator de risco para várias formas de psicopatologia, ao mesmo tempo em que apontaram uma diversidade grande de definições e de formas de medir. Essa ressalva importa: algumas definições enfatizam a capacidade real de suportar, outras a avaliação que a pessoa faz ("isto é insuportável"), e as duas podem não coincidir.

Como a baixa tolerância aparece no comportamento

O desconforto em si é universal. O que muda é o que a pessoa faz para encerrá-lo. Alguns exemplos frequentes:

Esses comportamentos têm em comum o alívio rápido, e é por isso que se repetem. A pesquisa associa estratégias como evitação, supressão e ruminação a mais sintomas de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e uso de substâncias, em uma metanálise de 114 estudos (Aldao e colaboradores, 2010). Trata-se de associação, e não de prova de que uma coisa cause a outra.

Por que isso entra na formulação do caso

A tolerância ao desconforto costuma ser a ponte entre o gatilho e o comportamento que mantém o problema. Imagine três pessoas: uma sente a ansiedade subir antes de uma apresentação e confere o material dez vezes; outra, ao sentir tédio e inquietação à noite, passa horas no celular; uma terceira, ao se sentir criticada, responde com irritação desproporcional. As condutas são diferentes, mas em todas há um desconforto que precisa acabar logo.

Por isso, ao montar a formulação de caso, o psicólogo costuma perguntar: qual era o desconforto? Como a pessoa o interpretou (perigoso, insuportável, interminável)? O que fez para encerrá-lo? O que aconteceu depois? As respostas indicam se o trabalho deve se concentrar em reconhecer emoções, em testar crenças sobre o desconforto, em enfrentar situações evitadas ou em retardar respostas impulsivas.

O que costuma ser treinado na terapia

Os caminhos variam conforme o caso, mas alguns elementos aparecem com frequência:

  • Nomear a emoção e a sensação, com precisão. Craske e colaboradores (2014) incluem a rotulação de afeto entre as estratégias para otimizar a exposição.
  • Observar o impulso sem agir de imediato, por alguns minutos, para notar como ele varia ao longo do tempo.
  • Enfrentar de forma gradual situações e sensações evitadas, com plano combinado.
  • Testar crenças como "vai durar para sempre" ou "vou perder o controle", comparando a previsão com o que de fato ocorre.
  • Usar recursos de acalmar o corpo, como respiração e atenção ao presente, como apoio, e não como mais uma forma de fugir do que se sente.

Em um ensaio com 223 pacientes com transtornos de ansiedade, um protocolo transdiagnóstico, que inclui o enfrentamento gradual de emoções e sensações, teve resultado equivalente ao de protocolos específicos (Barlow e colaboradores, 2017). Os detalhes e as ressalvas estão em terapia transdiagnóstica funciona?.

Como observar a sua própria relação com o desconforto

Algumas perguntas ajudam a tornar visível o intervalo entre sentir e reagir, que é onde o tratamento atua:

  • Quando sinto algo desagradável, qual é o meu primeiro impulso?
  • Quanto tempo costumo esperar antes de agir?
  • O que eu penso sobre a sensação: que é perigosa, que vai piorar, que não deveria estar ali?
  • Que ação traz alívio mais rápido, e o que ela custa depois?
  • Já houve momentos em que fiquei com a sensação e ela passou? O que foi diferente neles?

O objetivo dessas perguntas não é medir quanto você tolera, e sim perceber padrões. Vale lembrar também que o limiar não é fixo: dormir mal, estar sobrecarregado ou muito cansado pode tornar o desconforto mais difícil de suportar. A revisão de Harvey e colaboradores (2011) descreve uma relação recíproca entre perturbação do sono e regulação emocional, o que é mais um motivo para olhar também para a rotina, tema de como sono, rotina e relações influenciam a terapia.

Limites e cuidados

Primeiro, o conceito ainda é heterogêneo, e há perguntas em aberto sobre como a tolerância se relaciona com outros fatores de risco e de proteção (Leyro e colaboradores, 2010). Segundo, melhorar a tolerância não significa tolerar tudo: um mal-estar persistente em uma relação ou no trabalho pode ser um sinal legítimo de que algo precisa mudar, o que se discute em relacionamentos. Terceiro, em quadros de trauma, o ritmo e a escolha de métodos exigem cuidado redobrado. E, se o mal-estar vier com pensamentos de se machucar, procure ajuda imediata: CVV, 188, gratuito, 24 horas, ou SAMU, 192.

Entre o desconforto e a reação

Se a sensação de "não aguento" decide muitas das suas escolhas, vale levar esse padrão a um profissional de saúde mental. Ele pode ajudar a mapear o que acontece entre o desconforto e a reação e a treinar alternativas, passo a passo.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Baixa tolerância ao desconforto é um transtorno?

Não. É um processo psicológico estudado em vários quadros, descrito na literatura como candidato a fator de risco, e não um diagnóstico. Ter dificuldade em suportar certas sensações não significa que exista um transtorno. A avaliação profissional é que indica se esse processo está contribuindo para algum quadro e o quanto vale trabalhá-lo.

Dá para aumentar a tolerância ao desconforto?

É um alvo de trabalho em várias abordagens psicoterapêuticas, geralmente de forma gradual, por meio de nomear emoções, enfrentar situações evitadas e testar crenças sobre o desconforto. Mesmo assim, a pesquisa ainda discute como definir e medir o construto, então não é possível prometer resultado. A resposta varia de pessoa para pessoa.

Tolerar desconforto é aguentar sofrimento em silêncio?

Não. É conseguir sentir uma emoção difícil sem ser empurrado a agir só para eliminá-la. Isso não inclui permanecer em situações abusivas ou prejudiciais, nem negar o que se sente. Em alguns casos, o desconforto é um sinal legítimo de que algo precisa mudar, e identificar isso também faz parte do trabalho terapêutico.

Qual a diferença entre tolerância ao desconforto e regulação emocional?

A regulação emocional é um conceito mais amplo, que reúne tudo o que fazemos para influenciar as emoções que sentimos. A tolerância ao desconforto é uma parte dele: a capacidade de permanecer com a emoção ou a sensação desagradável sem agir de imediato para fazê-la cessar. As duas se relacionam e costumam ser trabalhadas em conjunto.

Respirar fundo ou se distrair ajuda?

Pode ajudar no momento, principalmente para baixar a intensidade e permitir uma escolha mais calma. O ponto de atenção é quando essas estratégias viram a única resposta e passam a funcionar como fuga de qualquer desconforto. Nesse caso, mantêm a ideia de que a sensação é insuportável. O psicólogo ajuda a distinguir o uso como apoio do uso como esquiva.

Referências

  1. PubMed: Distress tolerance and psychopathological symptoms and disorders: a review of the empirical literature among adults (Leyro e colaboradores, Psychological Bulletin, 2010)
  2. PubMed: Emotion-regulation strategies across psychopathology: A meta-analytic review (Aldao e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2010)
  3. PubMed: Maximizing exposure therapy: an inhibitory learning approach (Craske e colaboradores, Behaviour Research and Therapy, 2014)
  4. PubMed: Sleep disturbance as transdiagnostic: consideration of neurobiological mechanisms (Harvey e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2011)
  5. PubMed: The Unified Protocol for Transdiagnostic Treatment of Emotional Disorders Compared With Diagnosis-Specific Protocols for Anxiety Disorders: A Randomized Clinical Trial (Barlow e colaboradores, JAMA Psychiatry, 2017)

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