Um protocolo único para ansiedade e depressão funciona? Veja o que mostram o ensaio com 223 pacientes e a revisão de 50 estudos, e as limitações.
Usar um mesmo protocolo para tratar ansiedade, depressão e outros quadros parece conveniente, mas será que funciona de verdade? A pergunta é legítima, e a resposta curta é: as evidências são promissoras, com ressalvas importantes sobre quem foi estudado e como.
Em resumo: Estudos e revisões indicam que tratamentos transdiagnósticos reduzem sintomas de ansiedade e depressão em adultos, e um ensaio com 223 pacientes mostrou resultado equivalente ao de protocolos específicos para ansiedade, com menos abandono. Por outro lado, a qualidade dos estudos é em geral baixa, há pouca comparação direta e os resultados não valem automaticamente para todos os quadros e públicos.
Funciona em comparação com o quê?
Antes de olhar os números, vale entender a régua. Dizer que um tratamento "funciona" pode significar coisas bem diferentes. Ele pode ser melhor do que ficar em lista de espera, o que é uma comparação relativamente fácil de vencer. Pode ser melhor do que o atendimento habitual, comparação mais exigente. Ou pode ser tão bom quanto um tratamento já estabelecido, que é a pergunta central quando se quer saber se um protocolo único pode substituir vários específicos.
Esse último desenho é chamado de estudo de equivalência. Ele não busca mostrar que o novo tratamento é superior, e sim que não é pior em mais do que uma margem previamente definida. É um critério sensato, mas não responde a tudo.
O ensaio clínico com 223 pacientes
Barlow e colaboradores (2017) designaram aleatoriamente 223 adultos com transtorno de pânico (com ou sem agorafobia), transtorno de ansiedade generalizada, transtorno obsessivo-compulsivo ou ansiedade social para um de três grupos: o Protocolo Unificado, que é transdiagnóstico (88 pessoas), um protocolo específico para o diagnóstico (91) ou lista de espera (44). O tratamento tinha até 16 sessões ao longo de 16 a 21 semanas, e a avaliação foi feita por avaliadores que não sabiam em qual grupo cada pessoa estava.
Os resultados principais foram os seguintes. Os dois tratamentos foram superiores à lista de espera. A redução da gravidade clínica foi estatisticamente equivalente entre o protocolo transdiagnóstico e os específicos, tanto ao final do tratamento quanto no acompanhamento de seis meses. E as pessoas do grupo transdiagnóstico tiveram mais chance de concluir o tratamento (razão de chances de 3,11). Ou seja, não houve perda de eficácia, e houve menos abandono.
A revisão com 50 estudos
Newby e colaboradores (2015) reuniram 50 estudos de tratamentos transdiagnósticos para ansiedade e depressão em adultos, oferecidos de forma presencial ou pela internet com acompanhamento de um clínico. Os efeitos antes e depois do tratamento foram grandes para ansiedade e para depressão. Nos 24 ensaios randomizados, os tratamentos superaram as condições de controle, com diferenças menores quando a comparação era com o atendimento habitual. Em quatro comparações diretas com tratamentos específicos, o resultado foi semelhante para ansiedade e possivelmente melhor para depressão, mas os próprios autores chamam essa evidência de preliminar.
| Estudo | Tipo | O que mostrou | Ressalva principal |
|---|---|---|---|
| Barlow e colaboradores, 2017 | Ensaio randomizado, 223 pessoas | Equivalência com protocolos específicos e menos abandono | Um centro, quatro transtornos de ansiedade, acompanhamento de seis meses |
| Newby e colaboradores, 2015 | Revisão com metanálise, 50 estudos | Tratamentos eficazes para ansiedade e depressão | Qualidade baixa dos ensaios e grande variação entre eles |
Como ler os tamanhos de efeito
Os resultados da revisão aparecem como g de Hedges, uma medida do tamanho do efeito. Por convenção, valores perto de 0,2 são considerados pequenos, perto de 0,5 médios e perto de 0,8 grandes. As médias de 0,85 para ansiedade e 0,91 para depressão, comparando antes e depois do tratamento, soam impressionantes, mas esse tipo de comparação sem grupo de controle inclui melhoras que ocorreriam de qualquer forma, com o passar do tempo ou por outras influências. Por isso, merece mais atenção o que os ensaios randomizados mostraram contra grupos de controle: cerca de 0,65 para ansiedade, 0,80 para depressão e 0,46 para qualidade de vida.
O que esses dados permitem concluir, e o que não permitem
Dá para afirmar, com cautela, que abordagens transdiagnósticas são uma opção eficaz para ansiedade e depressão em adultos e que, em um ensaio clínico, reduziram o abandono do tratamento. Não dá para afirmar que sejam superiores aos protocolos específicos, nem que funcionem do mesmo jeito para qualquer pessoa ou diagnóstico.
Alguns limites merecem atenção:
- Qualidade dos estudos: a revisão de 2015 descreveu a qualidade dos ensaios como em geral baixa e a heterogeneidade como alta.
- Quem foi estudado: adultos, com média de idade em torno de 31 anos no ensaio de Barlow. Adolescentes, idosos e quadros graves ou com outros problemas associados aparecem pouco.
- Conflito de interesses: é comum que quem desenvolve um protocolo conduza o teste dele. Autores do ensaio declararam receber royalties de manuais usados no estudo, o que não invalida os resultados, mas pede replicação independente.
- Tempo de acompanhamento: seis meses mostram a manutenção inicial, mas não dizem o que ocorre depois de anos.
- Formato importa: na revisão, o efeito para ansiedade foi um pouco menor nos formatos em grupo do que nos individuais ou guiados pela internet.
O que isso muda para quem procura terapia
Na prática, o que essas pesquisas sustentam é uma ideia: tratar processos compartilhados, como a esquiva, a ruminação e a dificuldade de lidar com emoções intensas, pode ser tão útil quanto tratar cada diagnóstico separadamente, ao menos nos transtornos de ansiedade estudados, com evidência ainda preliminar para a depressão. Isso não obriga ninguém a escolher um nome de método. Mais importante do que o rótulo é que o tratamento tenha lógica, objetivos claros e seja ajustado quando necessário, como se discute em personalizar o tratamento psicológico.
Para o conceito básico, veja o que são terapias transdiagnósticas. E, se a dúvida for sobre abordagens baseadas em evidência em geral, vale conhecer o que é a terapia cognitivo-comportamental, cuja eficácia foi resumida por Hofmann e colaboradores (2012) em uma revisão de 106 metanálises.
O que fazer com essas informações
Se você está avaliando uma abordagem desse tipo, três perguntas ao profissional ajudam: que processos ele pretende trabalhar no seu caso, como pretende acompanhar se há melhora e em que momento o plano será revisto. Respostas claras a essas perguntas costumam valer mais do que o nome do método.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
Perguntas frequentes
A terapia transdiagnóstica funciona tão bem quanto a terapia específica?
Em um ensaio clínico com 223 adultos com transtornos de ansiedade, a redução de sintomas foi estatisticamente equivalente à de protocolos específicos, ao fim do tratamento e após seis meses. A revisão com 50 estudos aponta na mesma direção, mas com comparações diretas ainda escassas. Por isso, a conclusão é de eficácia comparável nesses quadros, e não de superioridade.
Os estudos sobre terapia transdiagnóstica são confiáveis?
Há resultados consistentes, mas com ressalvas. A revisão de 2015 descreveu a qualidade geral dos ensaios como baixa e a variação entre eles como alta. Além disso, parte dos estudos é conduzida por grupos ligados ao desenvolvimento dos protocolos. Replicações independentes e estudos com acompanhamento mais longo ajudariam a fortalecer as conclusões.
A terapia transdiagnóstica funciona para depressão?
A revisão de Newby e colaboradores encontrou efeitos grandes na depressão antes e depois do tratamento e superioridade sobre controles nos ensaios randomizados. Em quatro comparações com tratamentos específicos, os resultados sugeriram eficácia possivelmente maior para depressão, mas os autores consideram essa evidência preliminar. Ainda é preciso mais pesquisa para confirmar.
Por que mais pessoas terminam o tratamento transdiagnóstico?
O ensaio clínico mostrou que quem recebeu o protocolo transdiagnóstico teve mais chance de concluí-lo, com razão de chances de 3,11, mas não testou o motivo. Há hipóteses, como a simplicidade de um único conjunto de ferramentas ou a menor sensação de ser tratado em partes, porém elas ainda precisam ser investigadas em estudos específicos.
Existe versão online ou em grupo desse tratamento?
Sim. A revisão incluiu programas presenciais e programas pela internet com acompanhamento de um clínico. Para ansiedade, os efeitos antes e depois do tratamento foram semelhantes nos formatos individual (0,97) e guiado pela internet (0,96) e um pouco menores em grupo (0,70). Esses números são médias de estudos diferentes e não preveem o resultado de uma pessoa em particular.
Referências
- PubMed: The Unified Protocol for Transdiagnostic Treatment of Emotional Disorders Compared With Diagnosis-Specific Protocols for Anxiety Disorders: A Randomized Clinical Trial (Barlow e colaboradores, JAMA Psychiatry, 2017)
- PubMed: Systematic review and meta-analysis of transdiagnostic psychological treatments for anxiety and depressive disorders in adulthood (Newby e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2015)
- PubMed: The Efficacy of Cognitive Behavioral Therapy: A Review of Meta-analyses (Hofmann e colaboradores, Cognitive Therapy and Research, 2012)




