Sonolência durante o dia: causas, diferença para cansaço e quando investigar
Sono

Sonolência durante o dia: causas, diferença para cansaço e quando investigar

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Sono demais durante o dia não é só cansaço. Veja a diferença entre sonolência e fadiga, as causas mais comuns, o risco ao dirigir e quando investigar.

Cabecear numa reunião, lutar contra o sono na frente do computador, dormir no sofá logo depois do almoço e acordar sem ter percebido. Quando isso acontece com frequência, vem a dúvida: é falta de disciplina, cansaço, excesso de trabalho ou algum problema que merece atenção? Entender a diferença entre sonolência e cansaço é o primeiro passo.

Em resumo: sonolência diurna excessiva é a dificuldade de se manter acordado e alerta durante o dia, e não é o mesmo que fadiga. Segundo uma revisão, atinge cerca de 20% da população, e as causas mais comuns são sono insuficiente, apneia obstrutiva do sono e medicamentos sedativos. Aumenta o risco de acidentes. Quando é frequente ou aparece ao dirigir, pede avaliação médica.

Sonolência não é o mesmo que cansaço

No dia a dia, usamos "cansado" para tudo. Na ciência do sono, porém, sonolência e fadiga são fenômenos relacionados, mas distintos. Uma revisão sobre o tema descreve a sonolência como multidimensional e com várias causas, diferenciada da fadiga por um suposto comprometimento do mecanismo normal de alerta. Os autores observam que os dois termos costumam ser usados como sinônimos, embora tenham implicações diferentes para o diagnóstico e o tratamento (Shen e colaboradores, 2006).

Uma pergunta didática ajuda a separar as duas coisas: se você se deitasse agora num lugar silencioso, cochilaria? Se sim, é mais compatível com sonolência. Se a sensação é de falta de energia e de exaustão, mas você não adormeceria com facilidade, pesa mais a fadiga. Essa pergunta é só uma pista, e não um teste.

Essa distinção explica um dado interessante da validação brasileira da escala de sonolência de Epworth: nos 114 pacientes e 21 controles avaliados, os escores de quem tinha insônia não diferiram dos controles, enquanto os de quem tinha apneia do sono e de roncadores foram maiores (Bertolazi e colaboradores, 2009). Em outras palavras, quem dorme mal costuma se sentir exausto, mas nem sempre tem sonolência no sentido estrito. A fadiga aparece também em outros contextos, como cansaço mental e sobrecarga e burnout.

Quanto é comum e por que importa

A sonolência diurna excessiva é um dos sintomas mais comuns relacionados ao sono. Uma revisão estima que afete cerca de 20% da população e associa o problema a maior risco de acidentes de trânsito e de trabalho e a pior saúde em comparação com adultos semelhantes (Pagel, 2009).

O risco no trânsito foi quantificado em uma meta-análise com 17 estudos: a sonolência ao volante, relatada pelo próprio motorista, associou-se a um risco 2,5 vezes maior de acidentes (razão de chances de 2,51, com intervalo de confiança de 1,87 a 3,39), com grande heterogeneidade entre os estudos. Os autores afirmam que a sonolência ao volante deve ser considerada ao investigar a aptidão para dirigir (Bioulac e colaboradores, 2017).

Fora do trânsito, a sonolência reduz a atenção e a velocidade de reação, atrapalha o trabalho e os estudos, piora o humor e afeta relações. A relação com a atenção e a memória é discutida em dormir mal atrapalha a memória e a concentração.

Causas mais comuns

As causas mais comuns de sonolência diurna excessiva, segundo a revisão de Pagel, são a privação de sono, a apneia obstrutiva do sono e os medicamentos sedativos. Outras causas incluem certas condições médicas e psiquiátricas e transtornos do sono, como a narcolepsia (Pagel, 2009).

A apneia merece destaque. A mesma revisão estima que 26% a 32% dos adultos tenham ou estejam em risco de apneia obstrutiva do sono. Em São Paulo, um estudo com polissonografia em 1.042 voluntários encontrou apneia obstrutiva do sono em 32,8% dos participantes, com associação maior em homens, em pessoas com obesidade e em idades mais avançadas (Tufik e colaboradores, 2010). Isso não significa que toda pessoa com sono tenha apneia, mas mostra que a investigação é pertinente.

Causa possívelPistas que costumam aparecerQuem avaliar
Sono insuficienteDorme pouco por falta de tempo; melhora ao dormir maisRevisão da rotina
Apneia obstrutiva do sonoRonco alto, pausas na respiração vistas por outros, dor de cabeça pela manhãMédico
Medicamentos sedativosSonolência após começar ou mudar um remédioMédico, sem suspender por conta própria
Narcolepsia e outros distúrbiosSono súbito, ataques de sono, perda de força com emoçõesMédico do sono ou neurologista
Depressão e outros quadrosHumor rebaixado, falta de energiaProfissional de saúde mental ou médico

Como a sonolência é avaliada

A avaliação costuma começar por uma conversa detalhada sobre sono, saúde e medicamentos. A escala de sonolência de Epworth, publicada em 1991 e validada para o português do Brasil, é um questionário curto sobre a chance de cochilar em situações do cotidiano, e a versão brasileira mostrou boa confiabilidade (Bertolazi e colaboradores, 2009). Como qualquer questionário, ela ajuda a organizar a queixa, mas não confirma diagnóstico. Quando há suspeita de apneia ou de outros transtornos, o médico pode solicitar exames, como a polissonografia, assunto de quando procurar investigação médica.

O que fazer em segurança

  • Se sentir sono ao dirigir, pare em local seguro e descanse antes de continuar. Se isso é frequente, procure avaliação antes de seguir dirigindo.
  • Mantenha horários regulares e priorize o sono, como em horário regular, luz da manhã e sono.
  • Registre o sono em um diário do sono por duas semanas.
  • Veja o que o cochilo pode e não pode fazer em cochilo faz bem ou atrapalha o sono.
  • Evite estimulantes ou suplementos por conta própria e não mexa em remédios sem falar com o médico.

Quando procurar ajuda

Procure avaliação médica se a sonolência é frequente, se atrapalha o trabalho ou os estudos, se você cochila em situações perigosas ou ao dirigir, se há ronco alto com pausas ou se ocorrem ataques de sono súbitos. Se a queixa de atenção e memória persistir depois da investigação médica e do cuidado com o sono, a avaliação neuropsicológica pode ajudar a medir o impacto no desempenho cognitivo. Mais conteúdo em qualidade do sono.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre sonolência e cansaço?

Sonolência é a tendência a adormecer ou a dificuldade de se manter alerta, e fadiga é a sensação de falta de energia e esgotamento, mesmo sem facilidade para adormecer. Os dois termos são usados como sinônimos no dia a dia, mas têm causas e implicações diferentes. Distinguir ajuda a direcionar a investigação.

Ter sono o dia todo é preguiça?

Não. Sonolência diurna excessiva é um sintoma com causas possíveis, como sono insuficiente, apneia, medicamentos sedativos e outras condições. Segundo uma revisão, afeta cerca de 20% da população. Tratar como falha de caráter atrasa a investigação, e quando é frequente ou perigosa vale buscar avaliação médica.

A escala de Epworth diagnostica algum problema?

Não. A escala de Epworth é um questionário curto que estima a chance de cochilar em situações do dia a dia e ajuda a quantificar a queixa de sonolência. A versão brasileira foi validada, mas questionário não confirma diagnóstico. Quem interpreta o resultado e solicita exames, se necessário, é o médico.

Sentir sono ao dirigir é perigoso?

Sim. Uma meta-análise de 17 estudos encontrou que a sonolência ao volante se associou a risco 2,5 vezes maior de acidentes. Se você sente sono ao dirigir, pare em local seguro e descanse. Se isso é recorrente, procure avaliação médica antes de seguir dirigindo, pois pode haver causas tratáveis, como apneia.

Sonolência excessiva pode ser sinal de depressão?

Pode fazer parte do quadro em alguns casos, mas tem muitas outras causas, como sono insuficiente, apneia e medicamentos sedativos. Se a sonolência vem com tristeza persistente, perda de interesse ou pensamentos de morte, procure avaliação. O CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas, e o SAMU pelo 192 em emergências.

Referências

  1. PubMed: Excessive daytime sleepiness (Pagel, Am Fam Physician, 2009)
  2. PubMed: Distinguishing sleepiness and fatigue: focus on definition and measurement (Shen e colaboradores, Sleep Med Rev, 2006)
  3. PubMed: Portuguese-language version of the Epworth sleepiness scale: validation for use in Brazil (Bertolazi e colaboradores, J Bras Pneumol, 2009)
  4. PubMed: Risk of Motor Vehicle Accidents Related to Sleepiness at the Wheel: A Systematic Review and Meta-Analysis (Bioulac e colaboradores, Sleep, 2017)
  5. PubMed: Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study (Tufik e colaboradores, Sleep Med, 2010)

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