Problemas de sono: sinais de alerta e quando procurar investigação médica
Sono

Problemas de sono: sinais de alerta e quando procurar investigação médica

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Ronco com pausas, sono ao dirigir e pernas inquietas pedem avaliação médica. Veja os sinais de alerta, o que as diretrizes dizem e o que levar à consulta.

Dormir mal nem sempre é insônia. Às vezes o sono ruim é só a parte visível de outro problema, como uma pausa na respiração que ninguém percebeu, um desconforto nas pernas que piora à noite ou um comportamento incomum durante o sono. Saber reconhecer os sinais que pedem investigação médica evita anos de tentativas no lugar errado.

Em resumo: a maioria das queixas de sono começa com uma avaliação clínica simples, mas alguns sinais pedem investigação médica específica: ronco alto com pausas na respiração, sonolência ao dirigir, vontade irresistível de mexer as pernas à noite, comportamentos incomuns durante o sono e ataques de sono súbitos. Insônia por mais de três meses também merece avaliação. O psicólogo ajuda no que lhe cabe, mas não diagnostica apneia.

Por que investigar: o mesmo sintoma tem várias causas

Dificuldade para dormir, sono não reparador e cansaço no dia seguinte podem vir de insônia, mas também de apneia, movimentos periódicos das pernas, doenças clínicas e medicamentos. Por isso a diretriz europeia de 2023 recomenda começar a avaliação por uma entrevista clínica, que inclua a história de sono e de saúde, com questionários e diários, e exame físico quando indicado. A polissonografia deve ser usada quando há suspeita de outros transtornos do sono, como movimentos periódicos de membros e distúrbios respiratórios, e em casos de insônia resistente ao tratamento (Riemann e colaboradores, 2023).

Sinais de alerta e o que podem indicar

A tabela traz hipóteses, e não diagnósticos. Quem confirma é o médico.

SinalO que pode indicarA quem recorrer
Ronco alto, pausas ou engasgos, dor de cabeça ao acordarApneia obstrutiva do sonoMédico
Sono ao dirigir ou em situações perigosasSonolência excessiva, com várias causasMédico, com prioridade
Vontade de mexer as pernas ao repouso, pior à noiteSíndrome das pernas inquietasMédico
Gritar, bater ou cair da cama durante sonhosTranstorno comportamental do sono REMNeurologista ou médico do sono
Ataques de sono súbitosDistúrbios de hipersonolênciaMédico do sono ou neurologista
Só adormece de madrugada e acorda muito tardeAtraso do ritmo circadianoMédico do sono
Insônia por mais de 3 mesesInsônia crônicaMédico e profissional com formação em TCC-I

Apneia do sono e sonolência ao dirigir

A apneia obstrutiva do sono é uma causa comum de sono ruim e de sonolência durante o dia. Em um estudo em São Paulo com polissonografia em 1.042 voluntários, 32,8% apresentaram apneia obstrutiva do sono pelos critérios usados, com associação maior em homens, em pessoas com obesidade e com o avanço da idade (Tufik e colaboradores, 2010). Os sinais clássicos são ronco alto, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, engasgos, boca seca e dor de cabeça pela manhã.

A diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono é clara em dois pontos. O primeiro: a polissonografia é o exame padrão para diagnosticar apneia em adultos quando há preocupação com o problema após uma avaliação completa do sono, e testes domiciliares podem ser usados em adultos sem complicações e com sinais de risco aumentado para apneia moderada a grave. O segundo: ferramentas clínicas, questionários e algoritmos de predição não devem ser usados para diagnosticar apneia na ausência de polissonografia ou de teste domiciliar (Kapur e colaboradores, 2017). Ou seja, nenhum teste online confirma o diagnóstico.

A sonolência ao volante é um motivo para não esperar. Veja sonolência diurna excessiva.

Pernas inquietas e movimentos durante o sono

A síndrome das pernas inquietas é diagnosticada pela clínica, com base em critérios do grupo internacional de estudo da condição. Os critérios atualizados incluem o desejo de mexer as pernas, que costuma vir com sensações desconfortáveis, que começa ou piora no repouso, melhora com o movimento e é pior à noite. Um quinto critério essencial exige que os sintomas não sejam confundidos com os de outras condições (Allen e colaboradores, 2014). Por isso, pernas "agitadas" por ansiedade nem sempre são pernas inquietas, e vice-versa; a distinção cabe ao médico.

Comportamentos incomuns durante o sono

Atuar os sonhos, com gritos, socos ou quedas da cama, merece avaliação neurológica. Uma revisão aponta que o chamado transtorno comportamental do sono REM isolado é hoje reconhecido como um estágio prodrômico de doenças por acúmulo de alfa-sinucleína, como Parkinson e demência com corpos de Lewy, com risco muito alto de evolução ao longo do tempo (Högl e colaboradores, 2018). Isso não significa que toda pessoa que se mexe durante o sono desenvolverá essas doenças, mas justifica a investigação. Veja também Parkinson além do tremor e tipos de demência.

Como costuma ser a investigação e o que levar à consulta

Além da entrevista, o médico pode pedir exames, como polissonografia no laboratório ou teste domiciliar, quando indicado. O psicólogo não diagnostica apneia nem pernas inquietas e não prescreve medicamentos, mas pode organizar o registro do sono, tratar a insônia com TCC e acompanhar o impacto emocional e cognitivo, trabalhando em conjunto com o médico. Para entender os papéis, veja psicólogo, psiquiatra ou neuropsicólogo: qual procurar primeiro.

Para aproveitar a consulta, leve:

  • um diário do sono de duas semanas;
  • a lista completa de medicamentos e suplementos, com horários (veja medicamentos que alteram o sono);
  • informações sobre álcool, cafeína e tabaco;
  • o relato de quem dorme com você sobre ronco, pausas e movimentos;
  • histórico familiar de problemas de sono.

Quando é urgente

Procure atendimento sem demora se houver sono ao dirigir ou quase acidentes por sono, dor no peito ou falta de ar intensa à noite. Em emergências, o SAMU atende pelo 192. Se houver pensamentos de morte, o CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas. Remédios para dormir devem ser discutidos com o médico, sem iniciar, trocar ou interromper por conta própria.

Depois da investigação médica, se a insônia permanecer, a psicoterapia com TCC pode ajudar, presencialmente ou online. Mais informações em qualidade do sono e no texto sobre insônia.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Ronco é sempre sinal de apneia?

Não. Muita gente ronca sem ter apneia. Os sinais que levantam suspeita são ronco alto associado a pausas na respiração percebidas por outras pessoas, engasgos, boca seca, dor de cabeça ao acordar e sonolência durante o dia. A confirmação exige avaliação médica e, em geral, polissonografia ou teste domiciliar, e não depende de questionário.

Posso saber se tenho apneia por um questionário online?

Não. A diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono recomenda que ferramentas clínicas, questionários e algoritmos de predição não sejam usados para diagnosticar apneia na ausência de polissonografia ou de teste domiciliar. Questionários podem ajudar a organizar a suspeita, mas quem diagnostica é o médico, com exame adequado.

Pernas inquietas à noite podem ser ansiedade?

Podem ser confundidas, e é justamente por isso que o diagnóstico exige exclusão de outras causas. A síndrome das pernas inquietas tem critérios próprios: desejo de mexer as pernas que piora no repouso, melhora com o movimento e é mais forte à noite. Se isso acontece com frequência e atrapalha o sono, procure avaliação médica.

Que médico devo procurar para problemas de sono?

Pode-se começar por um clínico geral, que avalia o conjunto e encaminha. Conforme a suspeita, entram o médico do sono, o neurologista, o pneumologista, o otorrinolaringologista ou o psiquiatra. O psicólogo participa tratando a insônia e o impacto emocional, mas não diagnostica apneia nem prescreve medicamentos.

O que é polissonografia?

É o exame padrão para investigar distúrbios do sono, como a apneia. Ele registra, durante a noite, sinais como atividade cerebral, respiração e movimentos, geralmente em laboratório. Para alguns adultos sem complicações e com suspeita de apneia, há também testes domiciliares. A indicação do exame é do médico, após avaliação clínica.

Referências

  1. PubMed: The European Insomnia Guideline: An update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023 (Riemann e colaboradores, J Sleep Res, 2023)
  2. PubMed: Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline (Kapur e colaboradores, J Clin Sleep Med, 2017)
  3. PubMed: Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study (Tufik e colaboradores, Sleep Med, 2010)
  4. PubMed: Restless legs syndrome/Willis-Ekbom disease diagnostic criteria: updated International Restless Legs Syndrome Study Group (IRLSSG) consensus criteria--history, rationale, description, and significance (Allen e colaboradores, Sleep Med, 2014)
  5. PubMed: Idiopathic REM sleep behaviour disorder and neurodegeneration - an update (Högl e colaboradores, Nat Rev Neurol, 2018)

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