Medicamentos que podem alterar o sono: o que perguntar ao seu médico
Sono

Medicamentos que podem alterar o sono: o que perguntar ao seu médico

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Alguns remédios podem alterar o sono, e a doença tratada também. Veja o que a literatura descreve e as perguntas para levar ao médico, sem mudar nada.

Há quem comece um tratamento e, semanas depois, perceba que passou a dormir pior, ou que acorda embotado, ou que tem pesadelos novos. A primeira reação é desconfiar do remédio. A segunda, às vezes, é parar de tomá-lo. Entre as duas, vale uma etapa essencial: entender o que a literatura diz sobre medicamentos e sono e transformar a desconfiança em perguntas para o médico.

Em resumo: uma ampla variedade de medicamentos prescritos pode alterar o sono, causando insônia, sonolência, pesadelos, movimentos das pernas ou comportamentos durante o sono. O efeito depende do medicamento, da dose e do horário, e o sono ruim também pode vir da própria doença tratada. Ajustes só devem ser feitos pelo médico: nunca suspenda, troque ou inicie remédios por conta própria.

Doença, remédio e sono: três peças que se influenciam

Quando alguém dorme mal e usa medicamentos, há pelo menos três possibilidades que podem coexistir: a doença tratada atrapalha o sono, o remédio atrapalha o sono, ou o sono ruim piora a doença. Nesse jogo, atribuir tudo ao remédio pode ser tão equivocado quanto ignorá-lo. Sobre o papel das doenças, veja doenças que atrapalham o sono.

Uma revisão da literatura sobre perturbações do sono induzidas por medicamentos concluiu que uma ampla gama de medicamentos prescritos, usados em transtornos clínicos e psiquiátricos, pode afetar os padrões de sono. Ela descreve medicamentos que alteram a arquitetura do sono ou induzem insônia, movimentos periódicos dos membros, sedação, ataques de sono, pesadelos e parassonias do sono REM (Foral e colaboradores, 2011). Em outras palavras, a lista de efeitos possíveis é longa, e nem todo medicamento causa todos eles.

Antidepressivos: tipo, dose e horário importam

Uma revisão sobre antidepressivos e sono resume que os efeitos dependem do tipo de medicamento, da dose, do horário em que é tomado e da duração do tratamento. Segundo os autores, antidepressivos de efeito mais "ativador" podem atrapalhar o sono no tratamento de curto prazo, enquanto os de efeito sedativo melhoram o sono rapidamente, mas podem causar sedação excessiva no longo prazo. Alguns também podem piorar ou induzir síndrome das pernas inquietas, bruxismo, transtorno comportamental do sono REM, pesadelos e apneia, esta última possivelmente por ganho de peso (Wichniak e colaboradores, 2017).

A mesma revisão lembra que as queixas de sono são muito frequentes na depressão e que a insônia no meio da noite é o sintoma residual mais comum da doença. Ou seja, nem toda piora do sono em quem usa antidepressivo vem do remédio. Essa distinção só o médico, com as informações do seu caso, consegue fazer.

Estimulantes e TDAH

Em uma meta-análise de 35 estudos controlados por placebo com jovens com TDAH, que reuniu 3.079 expostos ao metilfenidato e 2.606 que receberam placebo, o risco relativo de eventos ligados ao sono aumentou para insônia em geral, insônia inicial, insônia no meio da noite, insônia combinada e transtorno do sono. As diferenças entre formulações também influenciaram os resultados. Os autores lembram que as perturbações do sono são uma característica do próprio TDAH, além de um efeito adverso possível do medicamento (Faraone e colaboradores, 2019). São dados de crianças e adolescentes, e a situação em adultos pode diferir. Quem está em tratamento para TDAH e dorme mal deve conversar com o médico; veja também TDAH em adultos.

Sedação, sonolência e o dia seguinte

Alguns medicamentos deixam a pessoa sonolenta durante o dia ou no dia seguinte, o que é relevante para dirigir e operar máquinas. Se você notar sonolência nova depois de começar ou mudar um remédio, anote a data e avise o médico. O tema da sonolência está em sonolência diurna excessiva.

Sobre remédios para dormir, a diretriz europeia de 2023 recomenda a terapia cognitivo-comportamental para insônia como primeira escolha em adultos com insônia crônica e afirma que, quando ela não é suficiente, uma intervenção farmacológica pode ser oferecida, com vantagens e desvantagens que devem ser consideradas (Riemann e colaboradores, 2023). Em outras palavras, é uma decisão individual do médico. Se você já usa um remédio para dormir, não o interrompa de uma hora para outra, nem aumente a dose por conta própria: converse com quem prescreveu.

Cafeína e outras substâncias do dia a dia

Nem tudo que interfere no sono é prescrito. Uma meta-análise com 24 estudos mostrou que a cafeína reduziu o tempo total de sono em cerca de 45 minutos e a eficiência em 7%, aumentou em 9 minutos o tempo para adormecer e em 12 minutos o tempo acordado depois de dormir. Pelos modelos dos autores, para evitar a redução do tempo total de sono, o café deveria ser consumido pelo menos 8,8 horas antes de deitar, e uma dose padrão de suplemento pré-treino, pelo menos 13,2 horas antes (Gardiner e colaboradores, 2023). São estimativas médias, e a sensibilidade varia entre as pessoas. Vale lembrar que há cafeína em alguns analgésicos, suplementos e bebidas energéticas, e ler o rótulo ajuda. O efeito do álcool está resumido em acordar de madrugada e não conseguir voltar a dormir.

O que perguntar ao médico

  1. Algum dos meus medicamentos pode alterar o sono?
  2. O horário em que tomo faz diferença? Existe um horário melhor?
  3. A dose pode estar contribuindo?
  4. O sono mudou depois que comecei ou mudei um remédio? (Leve as datas.)
  5. Meus sintomas, como pernas inquietas, pesadelos ou comportamentos durante o sono, podem estar ligados ao tratamento?
  6. Há outras causas de sono ruim que devemos investigar?
  7. Se uso remédio para dormir, qual é o plano: por quanto tempo, como reavaliar e se a TCC-I faz sentido para mim?

Para a consulta, leve a lista completa de medicamentos, fitoterápicos, suplementos e bebidas com cafeína, e um diário do sono com anotações dos horários dos remédios.

Quando procurar ajuda

Procure o médico sem demora se, depois de um remédio novo, surgirem sonolência intensa, confusão, comportamentos complexos durante o sono, como andar ou comer dormindo, ou piora importante do humor. Em emergências, o SAMU atende pelo 192, e, em caso de pensamentos de morte, o CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas.

A psicoterapia com TCC pode complementar o cuidado médico, trabalhando hábitos e pensamentos relacionados ao sono, sem substituir ou alterar a prescrição. Veja também insônia crônica: tratamento sem remédio com a TCC-I e, para outros sinais, quando procurar investigação médica.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Meu remédio pode estar me causando insônia?

É possível. Uma ampla gama de medicamentos prescritos pode alterar o sono, mas o efeito depende do medicamento, da dose e do horário, e a própria doença tratada também pode causar sono ruim. Anote quando o problema começou em relação ao início ou à mudança do remédio e leve essas informações ao médico, sem suspender por conta própria.

Posso mudar o horário do remédio por conta própria?

Não. O horário de algumas medicações pode influenciar o sono, mas a mudança deve ser feita com orientação de quem prescreveu, que conhece a dose, a forma de ação e o seu caso. Pergunte ao médico se existe um horário melhor e combine o ajuste. Não pule doses nem troque o horário por conta própria.

Antidepressivo dá sono ou tira o sono?

Depende do medicamento, da dose, do horário e do tempo de uso. Uma revisão aponta que alguns antidepressivos, mais ativadores, podem atrapalhar o sono no curto prazo, enquanto outros, mais sedativos, favorecem o sono rapidamente. Além disso, a própria depressão pode causar insônia. A avaliação deve ser feita pelo médico que acompanha você.

Remédio para TDAH atrapalha o sono?

Pode. Uma meta-análise com jovens com TDAH encontrou maior risco de relatos de insônia com metilfenidato em comparação com placebo, e o TDAH também pode causar perturbações do sono por si só. Em adultos, os dados podem diferir. Fale com o médico sobre horário, formulação e dose, em vez de ajustar sozinho.

A cafeína no fim da tarde atrapalha o sono?

Pode atrapalhar. Em uma meta-análise, a cafeína reduziu o tempo total de sono em cerca de 45 minutos. Pelos modelos dos autores, o café deveria ser consumido pelo menos 8,8 horas antes de deitar para evitar essa redução. São médias, e a sensibilidade varia. Também há cafeína em alguns analgésicos, suplementos e bebidas energéticas.

Referências

  1. PubMed: Medication-induced sleep disturbances (Foral e colaboradores, Consult Pharm, 2011)
  2. PubMed: Effects of Antidepressants on Sleep (Wichniak e colaboradores, Curr Psychiatry Rep, 2017)
  3. PubMed: Sleep-Associated Adverse Events During Methylphenidate Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: A Meta-Analysis (Faraone e colaboradores, J Clin Psychiatry, 2019)
  4. PubMed: The effect of caffeine on subsequent sleep: A systematic review and meta-analysis (Gardiner e colaboradores, Sleep Med Rev, 2023)
  5. PubMed: The European Insomnia Guideline: An update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023 (Riemann e colaboradores, J Sleep Res, 2023)

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