Emagreci mas Continuo Me Sentindo Gordo: Por que e Como Lidar
Autoestima

Emagreci mas Continuo Me Sentindo Gordo: Por que e Como Lidar

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Emagreceu e ainda se sente gordo? Entenda por que a imagem corporal demora a mudar, o peso da pele flácida, os sinais de dismorfia e como a TCC ajuda.

Emagrecer e continuar se sentindo gordo, ou gorda, é comum: a imagem corporal, o jeito como você percebe, pensa e sente o próprio corpo, costuma mudar mais devagar que o peso. Pesquisadores chamam esse descompasso de gordura fantasma, e ele não é fraqueza nem ingratidão com a conquista. Entender o que mantém essa sensação e, quando ela pesa no dia a dia, fazer terapia cognitivo-comportamental pode ajudar a mente a acompanhar o corpo.

O que É Imagem Corporal

Imagem corporal é a representação que você tem do próprio corpo, e não uma foto fiel dele. Uma revisão sistemática publicada em 2018 na revista Obesity Reviews, que reuniu 60 estudos sobre imagem corporal depois da cirurgia bariátrica, descreve essa representação como multidimensional, formada por aspectos cognitivos, afetivos, comportamentais e perceptivos. O peso muda o corpo, mas cada componente segue o próprio ritmo:

  • Perceptivo: como você enxerga o tamanho e as formas do corpo, no espelho e na memória.
  • Cognitivo: os pensamentos e crenças sobre ele, como "ainda estou enorme".
  • Afetivo: as emoções que o corpo desperta, como vergonha, ansiedade, nojo ou alívio.
  • Comportamental: o que você faz por causa disso, como se checar o tempo todo ou esconder o corpo.

Emagreci mas Não Me Vejo Magro: Por que Isso Acontece

Um estudo publicado em 2004 na revista Body Image comparou 165 mulheres: as que nunca tiveram sobrepeso, as que tinham sobrepeso e as que já tiveram e emagreceram. As que emagreceram tiveram resultados parecidos com os das que ainda tinham sobrepeso, e piores que os das que nunca tiveram, na preocupação com o excesso de peso e no quanto a aparência pesava na autoavaliação. Os autores ligaram o resultado à chamada gordura fantasma.

Na bariátrica, o quadro é parecido. A revisão da Obesity Reviews concluiu que a imagem corporal melhora de modo geral depois da cirurgia, mas alguns aspectos não melhoram ou não chegam aos níveis da população em geral. Em um dos estudos analisados, com 35 pacientes acompanhados por 12 meses, o medo de engordar e a sensação de estranhamento em relação ao próprio corpo não mudaram, embora outros incômodos tenham diminuído.

Meu Corpo Mudou mas Minha Cabeça Não

A imagem corporal se forma ao longo de anos, com lembranças, comentários, roupas que não serviam e situações de constrangimento. O corpo pode mudar em poucos meses, mas essas memórias e os hábitos ligados a elas não somem no mesmo ritmo. Por isso a sensação de ser grande pode continuar mesmo quando a roupa já diminuiu vários números. Veja também canetas emagrecedoras e saúde emocional.

Não Me Reconheço Depois de Emagrecer

Perder muito peso também mexe com a identidade. Chegam olhares, elogios e perguntas que você não sabe bem como receber, e o reflexo no espelho pode parecer de outra pessoa. Estranhar o novo corpo, desconfiar dos elogios ou sentir falta de quem você era são reações comuns nessa fase, e não sinal de que algo deu errado.

Pele Flácida Depois de Emagrecer e a Autoestima

O excesso de pele depois de uma grande perda de peso é muito comum e pode incomodar bastante. Segundo a revisão da Obesity Reviews, ele está associado a coceira, dermatite, irritação nas dobras, dificuldade para fazer exercício e para encontrar roupas, além de desconforto na vida íntima. Até 84,5% dos pacientes de bariátrica desejam uma cirurgia plástica de contorno corporal, mas apenas entre 21% e 47% chegam a fazê-la, segundo os estudos citados.

A revisão também aponta que a plástica tende a melhorar a imagem das regiões operadas, mas não necessariamente a do corpo todo. Cuidar da relação com o corpo faz sentido antes e depois dessa decisão.

Checagem e Evitação: Hábitos que Mantêm a Insatisfação Corporal

Dois grupos de comportamentos costumam manter a insatisfação corporal depois de emagrecer. A checagem é conferir o corpo repetidas vezes em busca de defeitos; a evitação é fugir de situações que expõem o corpo. Os dois trazem alívio rápido, mas mantêm a atenção presa ao que incomoda e impedem que você viva experiências capazes de atualizar a imagem que tem de si.

  • Checagem: olhar-se em todo espelho, apertar ou medir partes do corpo, pesar-se várias vezes ao dia, comparar-se com outras pessoas.
  • Evitação: fugir do espelho, usar roupas largas mesmo servindo números menores, recusar fotos, praia ou piscina, trocar de roupa no escuro.

Se a balança virou o centro do seu dia, leia sobre obsessão pela balança; se o receio é recuperar os quilos, veja medo de engordar novamente.

Quando Pode Ser Transtorno Dismórfico Corporal

Insatisfação com o corpo é comum; o transtorno dismórfico corporal é um quadro de saúde mental. Segundo o NHS, o serviço público de saúde do Reino Unido, nele a pessoa passa muito tempo preocupada com defeitos na aparência que muitas vezes os outros nem percebem. Não é vaidade, e o quadro pode afetar muito a vida. Alguns sinais descritos:

  • Preocupação intensa com uma parte específica do corpo
  • Muito tempo comparando a própria aparência com a de outras pessoas
  • Olhar-se no espelho o tempo todo ou evitar espelhos por completo
  • Grande esforço para esconder o que considera defeitos
  • Prejuízo no trabalho, na vida social ou nos relacionamentos

Só um psicólogo ou psiquiatra pode fazer esse diagnóstico. Restrição alimentar rígida, vômitos provocados ou laxantes para compensar o que comeu também pedem ajuda, porque podem indicar transtorno alimentar. O NHS alerta que a dismorfia pode levar a depressão, autolesão e pensamentos de suicídio: se eles surgirem, ligue para o CVV no 188, gratuito e 24 horas, ou acesse cvv.org.br.

Psicólogo para Imagem Corporal: Como a TCC Ajuda

Uma metanálise publicada em 2015 na revista PLoS ONE aponta a terapia cognitivo-comportamental (TCC) como a intervenção de maior destaque para imagem corporal. O estudo reuniu 62 testes de intervenções para imagem corporal, com 3.846 participantes, e encontrou melhora de pequena a moderada, menor depois de corrigidos os vieses dos estudos. As técnicas associadas a melhores resultados incluíram reestruturar pensamentos, exercícios de exposição, mudar a forma de descrever o corpo e prevenção de recaída. Na prática, isso inclui:

  • Questionar pensamentos como "ainda estou enorme" ou "só vou gostar de mim sem essa pele"
  • Trocar descrições como "barriga nojenta" por outras neutras, como "barriga arredondada"
  • Fazer exposição gradual ao espelho, a fotos e a roupas que você evita
  • Reduzir aos poucos a checagem e planejar o que fazer nos dias difíceis

No transtorno dismórfico corporal, o NHS indica TCC com exposição e prevenção de resposta e, em quadros moderados ou graves, pode incluir um antidepressivo da classe dos ISRS, prescrito por médico. O psicólogo não decide sobre cirurgia plástica nem prescreve remédio, e trabalha junto com o psiquiatra e a equipe. Quem vai operar pode começar esse cuidado na avaliação psicológica para bariátrica.

Atendo adolescentes e adultos que emagreceram, com dieta, canetas ou bariátrica, e querem fazer as pazes com o próprio corpo, em Belo Horizonte, no bairro Planalto, e também online.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

por que emagreci e continuo me sentindo gordo?

Porque a imagem corporal, que reúne percepção, pensamentos, emoções e comportamentos ligados ao corpo, costuma mudar mais devagar que o peso. Um estudo de 2004 na revista Body Image encontrou em mulheres que haviam emagrecido uma preocupação com o excesso de peso parecida com a de quem ainda tinha sobrepeso, fenômeno chamado de gordura fantasma.

é normal não se reconhecer depois de emagrecer?

É comum estranhar o reflexo e sentir que o corpo novo não é seu, principalmente depois de uma perda de peso grande e rápida. Se o estranhamento durar meses e trouxer sofrimento ou prejuízo na rotina, vale procurar um psicólogo.

como saber se tenho dismorfia corporal?

O transtorno dismórfico corporal envolve preocupação intensa e demorada com defeitos na aparência que os outros quase não percebem, com checagem no espelho ou evitação, comparações e prejuízo na vida. Só um psicólogo ou psiquiatra pode fazer o diagnóstico, em avaliação individual.

terapia ajuda na imagem corporal depois de emagrecer?

Pode ajudar. A terapia cognitivo-comportamental trabalha pensamentos sobre o corpo, exposição gradual ao espelho e redução da checagem, e uma metanálise de 2015 na revista PLoS ONE encontrou melhora de pequena a moderada com intervenções focadas na imagem corporal.

Referências

  1. PMC: Ivezaj V, Grilo CM. The complexity of body image following bariatric surgery: a systematic review of the literature (Obesity Reviews, 2018)
  2. PubMed: Annis NM, Cash TF, Hrabosky JI. Body image and psychosocial differences among stable average weight, currently overweight, and formerly overweight women (Body Image, 2004)
  3. PMC: Alleva JM et al. A meta-analytic review of stand-alone interventions to improve body image (PLoS ONE, 2015)
  4. NHS: Body dysmorphic disorder (BDD)

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