Escalas ajudam a acompanhar a terapia, mas têm limites: erro de medida, falsos positivos e vieses de resposta. Veja como usar os números com cautela.
Escalas, questionários e indicadores ajudam a acompanhar a evolução de uma terapia, e vale usá-los quando fazem sentido. Mas um número é uma síntese, e toda síntese deixa algo de fora. Conhecer os limites dessas ferramentas protege em duas direções: evita exagerar o que um questionário diz e evita descartá-lo como se não dissesse nada.
Em resumo: Escalas e indicadores têm limites importantes: têm erro de medida e geram falsos positivos e negativos, só medem o que perguntam, dependem do que a pessoa responde, nem sempre foram estudados em todos os contextos, não diagnosticam e, no monitoramento de terapia, têm efeito pequeno nos estudos. Valem mais como complemento da conversa clínica do que como veredito.
Os principais limites
| Limite | Exemplo | Como compensar |
|---|---|---|
| Erro de medida | A pontuação oscila por acaso ou por humor do dia | Olhar a tendência, não um único valor |
| Só mede o que pergunta | Escala de sintomas ignora relações, sentido e contexto | Combinar com funcionamento e relato |
| Depende da resposta | Vergonha ou desejo de agradar alteram respostas | Criar ambiente seguro e perguntar sobre o sentido das respostas |
| Pontos de corte imperfeitos | Casos deixados de fora ou apontados sem necessidade | Usar como triagem, nunca como diagnóstico |
| Validade em contextos | Instrumento pensado em um país pode funcionar diferente em outro | Preferir versões adaptadas e estudadas na população |
Erro de medida e pontos de corte
Nenhum instrumento acerta sempre. Quando o PHQ-9 foi validado por Kroenke e colaboradores (2001), em clínicas de atenção primária nos Estados Unidos, uma pontuação igual ou superior a 10 teve sensibilidade e especificidade de 88% para depressão maior. No Brasil, em um estudo de base populacional em Pelotas, com 447 adultos, Santos e colaboradores (2013) encontraram que o melhor ponto de corte foi acima de 9, com sensibilidade de 77,5% e especificidade de 86,7%. Ao usar o algoritmo de classificação do instrumento, a sensibilidade caiu para 42,5%, com especificidade de 95,3%. Em termos práticos, isso quer dizer que parte das pessoas com depressão pode não ser identificada, e parte de quem pontua alto pode não ter o quadro.
É por isso que se fala em triagem, e não em diagnóstico. A pontuação indica probabilidade e gravidade percebida, e o diagnóstico depende de avaliação clínica individual. Veja os instrumentos em PHQ-9 e GAD-7: escalas que acompanham a terapia.
O que as escalas não perguntam
Cada instrumento mede um recorte. O PHQ-9 foi pensado para depressão, e o GAD-7 para ansiedade generalizada. Eles não capturam, por exemplo, a qualidade das suas relações, a sensação de propósito, o impacto de um luto, a história de vida ou o que cada sintoma significa para você. Dois números iguais podem corresponder a vivências muito diferentes. Quando a sensação do paciente e os indicadores não batem, o caminho é investigar, tema de sentir-se melhor ou melhora medida. E, para o que acontece além dos sintomas, veja sintomas e funcionamento na evolução da terapia.
Respostas dependem de quem responde
Questionários de autorrelato refletem como a pessoa se sente e se lembra do período perguntado, e isso sofre influência do humor do dia, da memória, da vergonha e da vontade de agradar. Uma pessoa com receio de ser julgada pode responder de modo mais brando; outra, muito exigente consigo, pode responder de modo mais severo. Em um exemplo hipotético, duas pessoas com a mesma dificuldade de sono respondem ao mesmo questionário: uma, com receio de parecer frágil, minimiza; a outra, acostumada a descrever tudo em tom dramático, intensifica. A mesma experiência gera pontuações diferentes, e só a conversa mostra isso.
Também pesam o idioma, o nível de leitura e as expressões usadas em cada cultura. Por isso é importante que o instrumento tenha sido traduzido, adaptado e estudado na população em que será usado, como ocorreu com o PHQ-9 no estudo brasileiro citado acima.
Os resultados do monitoramento são modestos
Nos estudos sobre acompanhar resultados e devolver o retorno ao terapeuta, os efeitos são pequenos. De Jong e colaboradores (2021), em 58 estudos com 21.699 pacientes, encontraram efeito de d = 0,15 na redução de sintomas, e os autores apontam que ainda é preciso entender quando e por que o recurso ajuda. Boswell e colaboradores (2015) discutem os benefícios, as dificuldades e as soluções para implementar o monitoramento rotineiro na prática, e reconhecem obstáculos que costumam ficar em silêncio. Em outras palavras, medir não é suficiente: o que faz diferença é como a informação é usada. Veja o panorama em psicoterapia com monitoramento de resultados.
Riscos de usar mal os números
- Tratar o número no lugar da pessoa, e ajustar o plano só pela pontuação.
- Transformar a medida em cobrança de desempenho, o que tende a gerar desconforto e respostas menos honestas.
- Usar uma escala para diagnosticar ou para decidir sobre medicação, o que ela não foi feita para fazer.
- Comparar-se com outras pessoas ou com metas arbitrárias, sem considerar a sua história.
- Coletar dados sem devolutiva, e sem cuidado com sigilo.
Como usar com sensatez
Algumas atitudes ajudam: combinar o número com o seu relato e com a observação do psicólogo; olhar a tendência em várias medidas; perguntar o que o resultado significa para o seu caso; revisar o instrumento se ele não captar o que importa; e conversar se a aplicação estiver incomodando. Questionário ou teste online nunca confirma diagnóstico, e pontuações não devem orientar sozinhas decisões sobre tratamento ou remédios.
Quando um instrumento for proposto, quatro perguntas simples ajudam a situar o seu uso:
- O que ele mede, e o que deixa de fora?
- Para que será usado no meu caso: triagem, acompanhamento ou outra finalidade?
- Ele foi adaptado e estudado em população parecida com a minha?
- Como o resultado será conversado comigo e como os dados serão guardados?
Para levar daqui
Números são úteis quando servem à conversa, e perigosos quando a substituem. Conhecer os limites de cada ferramenta permite aproveitar o que ela oferece sem pedir a ela o que não pode dar. A régua mais confiável combina medida, observação clínica e a sua experiência de vida.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
Perguntas frequentes
As escalas psicológicas são confiáveis?
Instrumentos bem estudados têm boa confiabilidade e validade, mas nenhum acerta sempre. Há erro de medida, pontos de corte imperfeitos e dependência do que a pessoa responde. Por isso são usados como triagem e acompanhamento, junto com a avaliação clínica, e não como diagnóstico ou veredito.
Uma escala pode errar e indicar depressão ou ansiedade em quem não tem?
Pode. Em um estudo de base populacional no Brasil, o PHQ-9 com ponto de corte acima de 9 teve sensibilidade de 77,5% e especificidade de 86,7%, o que significa que ele deixa de identificar parte dos casos e aponta alguns que não são casos. Por isso o resultado deve ser interpretado por um profissional.
Por que meus números não refletem como me sinto?
Porque as escalas medem só o que perguntam, em um período determinado, e dependem de humor, memória e franqueza no momento da resposta. Podem não captar o que mais importa para você, como relações ou sentido. Leve a diferença para a sessão e combine indicadores complementares.
O monitoramento de resultados vale a pena se o efeito é pequeno?
Pode valer, desde que seja usado com a conversa clínica. Metanálises mostram efeitos pequenos a moderados, especialmente na redução de piora em casos fora do esperado. É uma medida simples e de baixo custo, mas não é solução mágica e depende de o resultado ser realmente discutido e usado para ajustar o plano.
Posso me recusar a responder questionários na terapia?
Pode conversar sobre isso. Se o formato incomoda, o psicólogo pode propor outras formas de acompanhar a evolução, como registros próprios ou perguntas na sessão. O importante é que haja alguma forma de olhar o andamento do tratamento, combinada de modo que faça sentido para você e respeite seu conforto.
Referências
- PubMed: Sensibilidade e especificidade do Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9) entre adultos da população geral (Santos e colaboradores, Cadernos de Saúde Pública, 2013)
- PubMed: The PHQ-9: validity of a brief depression severity measure (Kroenke e colaboradores, Journal of General Internal Medicine, 2001)
- PubMed: Using progress feedback to improve outcomes and reduce drop-out, treatment duration, and deterioration: A multilevel meta-analysis (de Jong e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2021)
- PubMed: Implementing routine outcome monitoring in clinical practice: benefits, challenges, and solutions (Boswell e colaboradores, Psychotherapy Research, 2015)




