Preocupação Excessiva: por que Não Consigo Parar de Me Preocupar com Tudo
Ansiedade

Preocupação Excessiva: por que Não Consigo Parar de Me Preocupar com Tudo

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Preocupar-se demais é sinal de ansiedade? Entenda por que a preocupação se prende, o papel da incerteza e o que ajuda no dia a dia, com base em pesquisa.

Preocupar-se com contas, saúde, filhos ou trabalho é humano. O problema começa quando a preocupação vira um ruído constante, difícil de desligar, que parece não resolver nada e ainda cansa. Se você se pergunta por que não consegue parar de se preocupar com tudo, entender como esse processo funciona é um bom começo para lidar melhor com ele.

Em resumo: Preocupação é um pensamento repetitivo voltado ao futuro, em geral no formato "e se...?", que tenta antecipar e evitar ameaças. Ela se torna excessiva quando é frequente, difícil de controlar e mantida por crenças de que preocupar-se protege, por baixa tolerância à incerteza e por hábito. Há estratégias eficazes para reduzi-la, e nem toda preocupação intensa é um transtorno.

Quando preocupar-se ajuda e quando atrapalha

A preocupação nasce de uma função razoável: perceber uma ameaça possível e tentar resolvê-la antes que aconteça. Segundo o modelo de Hirsch e Mathews (2012), ela surge da interação entre processos involuntários, como a tendência habitual de dar atenção e interpretação a sinais de ameaça, e processos voluntários, como o controle da atenção. Depois, em forma sobretudo verbal, a mente tenta resolver a ameaça percebida e passa a dedicar cada vez mais recursos ao conteúdo preocupante.

Daí a diferença prática entre dois tipos. A preocupação útil leva a um passo: marcar a consulta, conferir o prazo, conversar com alguém. A preocupação improdutiva trata de cenários hipotéticos, sem passo possível, e se repete. Uma pergunta separa os dois: existe algo que eu possa fazer hoje a respeito? Se sim, o pensamento deve virar ação. Se não, preocupar-se mais dificilmente protege de alguma coisa.

Um exemplo: "e se o exame der alterado?" é útil quando leva a marcar o retorno e a tirar dúvidas com o médico. É improdutivo quando, na véspera, a mente passa horas imaginando todos os diagnósticos possíveis. Observe o que acontece depois da preocupação. Se houve ação, o pensamento cumpriu seu papel. Se só houve desgaste, ele virou ciclo.

Por que a preocupação se mantém

Três fatores aparecem com frequência na pesquisa.

  • Crença de que preocupar-se protege. No estudo de Borkovec e Roemer (1995), com estudantes universitários, as razões mais típicas para se preocupar foram a motivação, a preparação para o pior e a prevenção de desfechos negativos. O grupo que atendia a critérios autorrelatados de transtorno de ansiedade generalizada se destacou por apontar a preocupação como distração de temas emocionalmente mais difíceis. Ou seja, preocupar-se pode funcionar também como um jeito de não sentir. Como a maioria dos desastres temidos nunca acontece, a mente ainda tende a concluir que "deu certo me preocupar", o que reforça a crença, segundo uma explicação clínica comum.
  • Dificuldade com a incerteza. Intolerância à incerteza é a dificuldade de suportar situações cujo desfecho não se pode saber. Na metanálise de Gentes e Ruscio (2011), ela se correlacionou de forma moderada a alta com sintomas de ansiedade generalizada (r = 0,57), de depressão (0,53) e de TOC (0,50). Portanto, não é exclusiva de um diagnóstico: aparece em vários.
  • Hábito e vieses. Quanto mais a mente é treinada a notar o que pode dar errado, mais ela encontra material. É o mecanismo de atenção e de interpretação descrito por Hirsch e Mathews.

Preocupação, ruminação e ansiedade: como se relacionam

Os termos se sobrepõem, mas não são sinônimos. A preocupação olha para o futuro ("e se eu for demitido?"). A ruminação gira em torno do passado e do próprio mal-estar ("por que eu fiz aquilo?"), como explica o texto sobre ruminação mental. A ansiedade é o estado emocional que costuma acompanhar a preocupação, com tensão, inquietação e sensações no corpo, assunto do guia sobre ansiedade e como controlar.

No estudo de Spinhoven e colaboradores (2018), com cerca de 2 mil adultos acompanhados por três anos, a dimensão comum do pensamento negativo repetitivo se associou à gravidade e à persistência dos sintomas de depressão e de ansiedade. Um fator específico de preocupação previu a presença de vários transtornos de ansiedade ao mesmo tempo e a recaída deles, em menor medida do que a dimensão geral. Os autores sugerem que o processo comum importa mais do que o rótulo do conteúdo.

O que ajuda no dia a dia

  1. Separe preocupações com solução das hipotéticas. Para as primeiras, defina um passo pequeno e uma data. Para as segundas, a tarefa é outra.
  2. Treine a tolerância à incerteza em doses pequenas. Decida algo sem consultar três pessoas, adie a pesquisa de sintomas na internet, deixe uma mensagem sem pedir confirmação. O objetivo é descobrir que é possível não saber e seguir em frente.
  3. Reduza a checagem e a busca por reasseguramento. Pedir garantias alivia por alguns minutos e costuma reforçar a dúvida a longo prazo.
  4. Reserve um horário para as preocupações. A técnica, usada na TCC, está descrita no texto sobre pensamentos intrusivos. Fora desse horário, anote e adie.
  5. Cuide do corpo e da rotina. Sono, movimento e pausas reduzem o terreno da ansiedade, embora não substituam o tratamento quando ele é necessário.

Em termos de evidência, a revisão de metanálises de Hofmann e colaboradores (2012) concluiu que o respaldo mais forte da terapia cognitivo-comportamental está nos transtornos de ansiedade, entre outras condições. Isso não significa resposta em todos os casos, mas coloca a TCC entre as primeiras opções a considerar.

Quando passa de preocupação a algo que merece avaliação

Para falar em transtorno de ansiedade generalizada, os critérios diagnósticos consideram preocupação excessiva e difícil de controlar na maior parte dos dias, por pelo menos seis meses, acompanhada de sintomas como inquietação, cansaço fácil, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular ou alteração do sono, com prejuízo na vida. Nem toda preocupação intensa se encaixa nisso: o momento de vida, uma doença na família ou uma instabilidade financeira podem explicar períodos de preocupação alta. O quadro completo está em TAG: sintomas e tratamento, e nenhum questionário online confirma o diagnóstico.

Se a preocupação toma boa parte dos seus dias, atrapalha o sono ou a concentração, ou leva você a evitar decisões, conversar com um psicólogo é um passo sensato. Na psicoterapia para ansiedade, a partir da TCC, posso ajudar você a identificar o que sustenta a sua preocupação e a treinar alternativas no ritmo que for possível.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre preocupação e ansiedade?

Preocupação é um processo de pensamento voltado ao futuro, geralmente verbal, no formato de cenários do tipo e se der errado. Ansiedade é o estado emocional que costuma acompanhá-la, com tensão, inquietação e sensações físicas. Uma alimenta a outra, mas é possível ter uma preocupação intensa sem ansiedade clínica, e o inverso também acontece.

Preocupar-se muito significa ter TAG?

Não necessariamente. Os critérios do transtorno de ansiedade generalizada pedem preocupação excessiva, difícil de controlar, na maior parte dos dias por pelo menos seis meses, com sintomas associados e prejuízo na vida. Períodos de preocupação alta por motivos reais são comuns. Só uma avaliação profissional pode diferenciar, e testes online não confirmam diagnóstico.

Preocupar-se ajuda a evitar que coisas ruins aconteçam?

Muitas pessoas acreditam que sim, e a pesquisa mostra que essa crença é comum entre quem se preocupa muito. Quando a preocupação leva a um passo concreto, ela pode ajudar. Quando fica em cenários hipotéticos, ela costuma só aumentar o desconforto, sem alterar o que vai acontecer. A pergunta útil é se há algo a fazer hoje.

Como parar de pensar sempre no pior?

Não existe interruptor, e tentar bloquear o pensamento costuma piorar. Ajuda separar o que tem solução do que é hipótese, agir no que dá, treinar a tolerância à incerteza em doses pequenas, reduzir checagens e reassegurar-se menos, e reservar um horário para as preocupações. Se não houver melhora, a TCC é uma boa opção.

A preocupação excessiva tem tratamento?

Sim. A terapia cognitivo-comportamental é a psicoterapia com maior respaldo para transtornos de ansiedade, segundo revisão de metanálises. O trabalho costuma envolver identificar os gatilhos e as crenças sobre a preocupação, treinar a tolerância à incerteza e reduzir comportamentos de checagem. Em alguns casos, o médico avalia a indicação de medicação.

Referências

  1. PubMed: A cognitive model of pathological worry (Hirsch e Mathews, Behaviour Research and Therapy, 2012)
  2. PubMed: Perceived functions of worry among generalized anxiety disorder subjects: distraction from more emotionally distressing topics? (Borkovec e Roemer, Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 1995)
  3. PubMed: A meta-analysis of the relation of intolerance of uncertainty to symptoms of generalized anxiety disorder, major depressive disorder, and obsessive-compulsive disorder (Gentes e Ruscio, Clinical Psychology Review, 2011)
  4. PubMed: Repetitive negative thinking as a predictor of depression and anxiety: A longitudinal cohort study (Spinhoven e colaboradores, Journal of Affective Disorders, 2018)
  5. PubMed: The Efficacy of Cognitive Behavioral Therapy: A Review of Meta-analyses (Hofmann e colaboradores, Cognitive Therapy and Research, 2012)

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