Engolir o que Sente Funciona? O que a Pesquisa Mostra sobre Suprimir Emoções
Inteligência Emocional

Engolir o que Sente Funciona? O que a Pesquisa Mostra sobre Suprimir Emoções

Thiago C. Rodrigues

Psicólogo e neuropsicólogo · CRP 04/78676

6 min de leitura

Esconder ou tentar não sentir funciona? Veja o que a pesquisa mostra sobre suprimir emoções e pensamentos, quando segurar é útil e as alternativas.

"Engole o choro." "Não pense nisso." "Isso não é nada." Muita gente aprendeu que o jeito de lidar com uma emoção desconfortável é empurrá-la para baixo. Às vezes funciona, ao menos por algumas horas. A pergunta é: qual o custo, e quando segurar é uma escolha razoável?

Em resumo: Suprimir pode significar esconder a expressão, tentar não sentir ou tentar não pensar. Em experimentos, esconder a expressão altera os resultados emocionais, mas tentar não sentir e não pensar em geral não funciona. Quando vira hábito, a supressão se associa a pior bem-estar e a relações mais frágeis. Segurar pontualmente pode ser útil; o problema é segurar sempre e nunca elaborar depois.

Três coisas diferentes chamadas de supressão

O termo "supressão" mistura estratégias distintas, e a pesquisa mostra que elas não se comportam do mesmo modo. A meta-análise de Webb, Miles e Sheeran (2012), com 306 comparações experimentais, separou três delas.

TipoO que éExemploEfeito em experimentos
Da expressãoEsconder o que se sente por foraSorrir numa reunião tensaEfeito pequeno a médio
Da experiênciaTentar não sentir"Não vou ficar triste"Sem efeito
Do pensamentoTentar não pensar no assunto"Esquece isso"Sem efeito, às vezes contrário

Os números ilustram a diferença. Suprimir a expressão teve efeito de d = 0,32 sobre os resultados emocionais medidos, ao passo que suprimir a experiência (d = -0,04) e suprimir pensamentos sobre o evento (d = -0,12) não funcionaram. Em outras palavras, nos experimentos foi possível esconder, mas o esforço direto para sentir menos ou pensar menos não funcionou, em média.

O que acontece quando esconder vira hábito

Uma coisa é suprimir em uma situação específica. Outra é fazer disso um modo de funcionar. Em cinco estudos, Gross e John (2003) compararam pessoas que usam habitualmente a reavaliação com as que usam supressão. Quem suprimia mais relatava e demonstrava menos emoção positiva, mas vivia mais emoção negativa, tinha pior funcionamento interpessoal e menor bem-estar, enquanto o uso habitual de reavaliação mostrava o oposto. São diferenças individuais medidas por questionário, o que indica associação e não permite afirmar que a supressão seja a causa.

Os efeitos sociais aparecem também em uma metanálise de Chervonsky e Hunt (2017), com 43 artigos e 105 tamanhos de efeito. Mais supressão se associou a primeiras impressões mais negativas, menor apoio social, menor satisfação e qualidade nas relações sociais e pior qualidade da relação romântica. A mesma revisão mostra um dado importante: expressar emoções positivas se associou a melhores resultados sociais, mas expressar raiva se associou a piores. Ou seja, o oposto de suprimir não é explodir. É expressar de modo calibrado.

Muita gente aprendeu a suprimir cedo, em famílias em que chorar ou discordar não era bem recebido, em ambientes de trabalho que valorizam a frieza ou em culturas que associam emoção a fraqueza. Isso torna o hábito compreensível, e não um defeito pessoal. Perceber de onde o hábito vem facilita mudá-lo com gentileza. O tema aparece também em Novembro Azul e saúde mental masculina.

E suprimir pensamentos?

O experimento clássico do urso branco, de Wegner e colaboradores (1987), mostrou que pessoas instruídas a não pensar em um urso branco não conseguiram e, depois, pensaram mais nele do que quem teve permissão desde o início. No segundo experimento, quem recebeu um pensamento específico para usar como distração teve menos preocupação posterior com o pensamento suprimido.

A metanálise de Abramowitz, Tolin e Street (2001) matizou esse quadro. Reunindo estudos controlados, encontrou um efeito de rebote de pequeno a moderado, que variava conforme o tipo de pensamento e o método de medida, e participantes com diagnóstico clínico não mostraram rebotes maiores, ainda que poucos estudos incluíssem amostras clínicas. Por isso a resposta não é um simples "sempre falha": o rebote não é universal, mas é frequente e relevante o bastante para não se apostar nele. O passo a passo para lidar com esses pensamentos está em pensamentos intrusivos e como parar de remoer.

Um sinal prático de que a supressão pode estar pesando é se conter bem ao longo do dia inteiro e, de repente, reagir de forma desproporcional a algo pequeno. Esse padrão não prova que a emoção contida "explodiu" (os estudos citados aqui não testam isso diretamente), mas é um aviso útil de que a emoção talvez não tenha tido onde ser elaborada.

Quando segurar é razoável

Suprimir a expressão não é sempre um erro. Em uma reunião, em um atendimento ao público, ao cuidar de uma criança assustada ou numa situação em que a segurança está em jogo, adiar a manifestação pode ser a melhor escolha. A estratégia se torna problemática quando é a única, quando ocorre em todos os contextos e quando a emoção segurada nunca é elaborada depois. A regra prática é "segurar agora, processar depois", com hora e lugar para isso. Uma pergunta ajuda a distinguir: segurar está a serviço de um objetivo (terminar a reunião, proteger alguém) ou de evitar sentir? No primeiro caso, é escolha; no segundo, tende a ser esquiva, tema de esquiva e ansiedade. O texto sobre regulação emocional em diferentes contextos mostra como o contexto altera o que funciona.

Alternativas ao "engolir"

  • Pausa com data marcada. Adie a conversa ou a reflexão para um horário definido, e cumpra.
  • Nomear o que se sente, o que tende a reduzir a intensidade no momento. Veja não sei o que estou sentindo.
  • Expressão calibrada. Diga o essencial em primeira pessoa, sem descarregar tudo, como em comunicação assertiva.
  • Reavaliar ou aceitar, conforme a controlabilidade. O mapa está em como lidar com emoções difíceis.
  • Apoio de alguém de confiança, pois falar com outra pessoa também é uma forma de regular.

Quando buscar ajuda

Vale conversar com um psicólogo se você sente que "não sente nada" ou que precisa se manter sempre sob controle, se acumula tensão, sintomas físicos ou explosões, ou se a vida emocional ficou limitada ao que é possível mostrar. A ligação entre emoções contidas e sintomas no corpo é discutida em como as emoções afetam o corpo. Em psicoterapia, é possível entender quando e por que você suprime e treinar formas de expressar com segurança.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.

Perguntas frequentes

Suprimir emoções faz mal?

Depende de como e quanto. Esconder a expressão pontualmente pode ser útil. Como hábito, a supressão se associa a menos emoção positiva, mais emoção negativa, relações mais frágeis e pior bem-estar, segundo estudos que indicam associação, não causa. Tentar não sentir ou não pensar, por esforço direto, em geral não funciona. O mais saudável é segurar agora e elaborar depois.

Qual a diferença entre suprimir e controlar emoções?

Suprimir é tentar esconder, abafar ou não sentir. Controlar emoções, no sentido de regulá-las, inclui mudar a situação, direcionar a atenção, reinterpretar, aceitar e expressar de modo calibrado. A regulação busca uma resposta adequada ao contexto, e não a ausência de emoção. Por isso estratégias como nomear e aceitar tendem a funcionar melhor do que simplesmente abafar.

Por que tentar não pensar em algo faz pensar mais?

Porque a mente precisa monitorar o pensamento para saber se está sendo evitado, o que mantém o assunto ativo. O experimento clássico do urso branco mostrou esse efeito de rebote. Metanálises indicam que o rebote é de pequeno a moderado e varia conforme o tipo de pensamento e o método, então não é universal, mas é frequente.

Expressar tudo o que sinto é melhor do que guardar?

Não necessariamente. Em uma metanálise, expressar emoções positivas se associou a melhores resultados sociais, mas expressar raiva se associou a piores. O oposto de suprimir é expressar de modo calibrado: dizer o essencial, em primeira pessoa e no momento adequado, sem descarregar tudo no outro.

Quando devo procurar ajuda por esconder o que sinto?

Quando você sente que não sente nada, precisa se manter sempre sob controle, acumula tensão, sintomas físicos ou explosões, ou quando a vida emocional ficou limitada ao que é possível mostrar. Um psicólogo pode ajudar a entender quando e por que você suprime e a treinar formas mais seguras de expressar o que sente.

Referências

  1. PubMed: Dealing with feeling: a meta-analysis of the effectiveness of strategies derived from the process model of emotion regulation (Webb e colaboradores, Psychological Bulletin, 2012)
  2. PubMed: Individual differences in two emotion regulation processes: implications for affect, relationships, and well-being (Gross e John, Journal of Personality and Social Psychology, 2003)
  3. PubMed: Suppression and expression of emotion in social and interpersonal outcomes: A meta-analysis (Chervonsky e Hunt, Emotion, 2017)
  4. PubMed: Paradoxical effects of thought suppression: a meta-analysis of controlled studies (Abramowitz e colaboradores, Clinical Psychology Review, 2001)
  5. PubMed: Paradoxical effects of thought suppression (Wegner e colaboradores, Journal of Personality and Social Psychology, 1987)

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