Esquecimento e falta de foco na perimenopausa podem ser TDAH? Veja o que a pesquisa mostra sobre hormônios e atenção e como investigar com cuidado.
Entre os 40 e os 55 anos, muitas mulheres começam a notar que esquecem palavras, perdem o fio da reunião e demoram mais para se concentrar. Algumas ouvem de uma amiga que "isso é TDAH que apareceu com a menopausa". Outras ouvem do médico que é "normal da idade". A pesquisa não valida nenhuma das duas frases de forma simples, e vale entender por quê antes de rotular o que está acontecendo.
Em resumo: esquecimento e dificuldade de concentração são queixas frequentes na perimenopausa, mas os estudos sobre desempenho cognitivo nessa fase são inconsistentes. Pesquisas recentes mostram que mulheres com TDAH relatam sintomas de transição mais intensos, sem provar que a menopausa cause TDAH. Para separar as hipóteses importam a linha do tempo, o sono, o humor e a avaliação médica da transição, e não apenas um teste.
O que se sabe sobre a "névoa mental" da menopausa
"Névoa mental" é o nome popular para um conjunto de queixas: lapsos de memória, dificuldade de achar palavras, atenção que oscila e sensação de lentidão. Um guia prático para médicos (Abernethy e colaboradores, 2026) descreve essa névoa como tipicamente subjetiva, flutuante e associada a outros sintomas da transição, como distúrbios do sono, ondas de calor e alterações do humor. Já o quadro de demência tenderia a ser progressivo, a prejudicar o desempenho de forma objetiva e a trazer perda de autonomia.
Quanto ao desempenho nos testes, os resultados variam. Uma meta-análise recente (Bangle e colaboradores, 2026), com 26 artigos e 9.428 participantes, encontrou desempenho pior na perimenopausa do que na pré-menopausa, com efeito moderado, mas apenas nos estudos que usaram critérios padronizados de estágio reprodutivo. Não houve diferença entre perimenopausa e pós-menopausa. Os autores atribuem parte da inconsistência a diferenças de método. Ou seja: as queixas são reais e frequentes, mas a ciência ainda não descreve com precisão o que muda, em quem e por quanto tempo.
Por que a atenção pode piorar nessa fase
Os mecanismos ainda estão em estudo. Entre os fatores citados na literatura e na prática clínica estão a oscilação hormonal, o sono fragmentado por calor noturno, as mudanças de humor, o cansaço e o acúmulo de demandas típicas dessa etapa da vida, como trabalho, filhos e cuidado de pais idosos. Uma revisão de especialistas em TDAH feminino (Kooij e colaboradores, 2025) levanta a hipótese de que períodos de estrogênio mais baixo possam afetar a cognição por meio de vias ligadas à dopamina, e relata que transições hormonais agravariam sintomas de TDAH e de humor. É uma hipótese plausível, com pouca pesquisa que a teste diretamente.
E o TDAH?
Há dois tipos de dados. Em um estudo populacional com 535 mulheres que relataram TDAH e 4.857 que não (Jakobsdóttir Smári e colaboradores, 2025), as com TDAH tiveram pontuação média maior de sintomas de perimenopausa (18,0 contra 13,0) e mais sintomas graves (54,2% contra 30,1%), com a diferença mais marcada entre 35 e 39 anos. Os autores sugerem um possível início mais precoce da perimenopausa no TDAH. Outro levantamento transversal, com 602 mulheres recrutadas em grupos de apoio, redes sociais e plataformas on-line (Boyd e colaboradores, 2026), também encontrou maior gravidade de sintomas menopausais entre as com TDAH.
Os limites são claros: o diagnóstico de TDAH foi autorrelatado, os sintomas foram medidos por questionários e há risco de vieses de seleção. Os estudos mostram associação, e não que a menopausa cause TDAH. O que eles sustentam é outra coisa: quem já tem TDAH pode sentir a transição de forma mais intensa, e muitas mulheres só buscam avaliação nessa fase porque as estratégias que usavam deixam de funcionar. Esse mecanismo é descrito em estratégias compensatórias no TDAH e em autismo e TDAH em mulheres adultas.
Como diferenciar na prática
| Pista | Mais sugestiva de transição | Mais sugestiva de TDAH prévio |
|---|---|---|
| Início | Recente, junto de mudanças no ciclo ou calor | Desde a infância ou adolescência |
| Curso | Flutua com sono, calor e humor | Persistente, com piora em fases |
| Outros sinais | Ondas de calor, suor noturno, ciclo irregular | Desorganização e procrastinação antigas |
| História | Funcionava bem antes, sem esforço extra | Sempre exigiu esforço, com adaptações |
Quando há sobreposição, a linha do tempo é o fio condutor, porque o critério para TDAH exige sintomas desde a infância, como explica TDAH de início tardio. Não é raro que existam as duas coisas ao mesmo tempo.
O que investigar e com quem
- Ginecologista, endocrinologista ou clínico: avaliar a transição menopausal, o sono e outras causas médicas, como alterações de tireoide. Qualquer tratamento para os sintomas da transição, hormonal ou não, é decisão médica.
- Psiquiatra ou neurologista: diagnóstico médico de TDAH, quando há suspeita, e decisões sobre remédio.
- Neuropsicólogo: a avaliação neuropsicológica descreve atenção, memória e funções executivas, reúne a história desde a infância e emite o laudo psicológico. Não é obrigatória para o diagnóstico de TDAH, mas ajuda a organizar hipóteses quando a causa não está clara.
- Psicoterapia: a terapia cognitivo-comportamental pode ajudar com ansiedade, humor e organização, sem substituir o cuidado médico.
Sono e humor merecem atenção própria. Veja TDAH e sono, a página sobre qualidade do sono e o artigo sobre perda de memória e confusão mental em adultos.
Sinais para buscar ajuda sem esperar
Procure um médico se a memória piora de forma progressiva, se você se perde em lugares conhecidos, tem dificuldade para cuidar de contas ou de tarefas que antes fazia bem, ou se as pessoas próximas notam mudanças marcantes de comportamento. Se surgirem tristeza intensa, desesperança ou pensamentos de se machucar, ligue para o CVV pelo 188, gratuitamente e a qualquer hora, ou procure o SAMU pelo 192 em emergência.
Se a dúvida é saber o que é da transição e o que já vinha de antes, a avaliação neuropsicológica pode ajudar a mapear a atenção e a memória e a contar a sua história, em conjunto com o médico que acompanha você.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
Perguntas frequentes
A menopausa pode causar TDAH?
Não há evidência de que a menopausa cause TDAH, que é um transtorno do neurodesenvolvimento com início na infância. O que os estudos mostram é associação: mulheres com TDAH relatam sintomas de perimenopausa mais intensos, e a transição pode piorar a atenção de quem já tinha o quadro. Dificuldade de concentração nessa fase também pode vir da própria transição.
Como saber se meu esquecimento é da menopausa ou TDAH?
A linha do tempo é a principal pista. Dificuldades desde a infância ou a adolescência, persistentes e presentes em vários contextos, apontam para TDAH. Dificuldades recentes, que oscilam com sono, calor e humor e acompanham mudanças no ciclo, apontam para a transição. As duas coisas podem coexistir, e a avaliação médica e neuropsicológica ajuda a separá-las.
A névoa mental da menopausa é sinal de demência?
Em geral não. Um guia para médicos descreve a névoa mental da menopausa como subjetiva, flutuante e ligada a sono ruim, ondas de calor e alterações do humor, enquanto a demência tende a ser progressiva, com prejuízo objetivo e perda de autonomia. Se houver piora progressiva ou desorientação, procure avaliação médica sem demora.
Hormônios ou remédios resolvem a atenção na menopausa?
Essa é uma decisão exclusivamente médica. O tratamento dos sintomas da transição, hormonal ou não, depende do seu histórico de saúde e deve ser discutido com o ginecologista ou o clínico. Para TDAH, quem decide sobre remédio é o psiquiatra ou o neurologista. Não inicie nem interrompa tratamentos por conta própria.
Preciso de avaliação neuropsicológica para saber se tenho TDAH na menopausa?
Não é obrigatória, já que o diagnóstico de TDAH é clínico. Mas a avaliação neuropsicológica pode ajudar quando a causa da dificuldade não está clara: ela descreve atenção, memória e funções executivas, reúne a história desde a infância e considera sono e humor. O laudo psicológico complementa o trabalho do médico.
Referências
- PubMed: Cognitive functioning in perimenopause: An updated systematic review and meta-analysis (Bangle e colaboradores, Psychology and Aging, 2026)
- PubMed: Menopausal 'brain fog' or dementia?-a practical guide for clinicians (Abernethy e colaboradores, Post Reproductive Health, 2026)
- PubMed: Perimenopausal symptoms in women with and without ADHD: A population-based cohort study (Jakobsdóttir Smári e colaboradores, European Psychiatry, 2025)
- PubMed: Research advances and future directions in female ADHD: the lifelong interplay of hormonal fluctuations with mood, cognition, and disease (Kooij e colaboradores, Frontiers in Global Women's Health, 2025)
- PubMed: ADHD and the female reproductive stages: menstruation, perinatal and menopause (Boyd e colaboradores, Archives of Women's Mental Health, 2026)




