Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem precisar de planos diferentes. Entenda por que sintomas, processos, contexto e objetivos mudam o tratamento.
Duas pessoas recebem o mesmo diagnóstico de depressão. Uma mal consegue dormir, anda inquieta e se culpa o tempo todo. A outra dorme demais, sente o corpo pesado e perdeu o interesse por tudo. Os critérios diagnósticos permitem que as duas estejam no mesmo grupo, mas dificilmente um único plano de tratamento serviria igualmente bem para ambas.
Em resumo: Pessoas com o mesmo diagnóstico podem precisar de tratamentos diferentes porque o rótulo agrupa quadros com combinações distintas de sintomas, processos que mantêm o sofrimento, contextos de vida e objetivos. O diagnóstico orienta o caminho, mas não o esgota. Por isso, o plano parte da avaliação de cada caso, sem abandonar os métodos com evidência.
O que um diagnóstico diz, e o que ele deixa de dizer
Um diagnóstico descreve um padrão de sintomas e de prejuízos, com critérios estabelecidos, e cumpre funções importantes: facilita a comunicação entre profissionais, orienta a escolha de métodos e sinaliza quando é preciso uma avaliação médica. O que ele não faz é explicar por que aquele padrão está acontecendo com aquela pessoa, nem indicar sozinho o que fazer primeiro.
Em vários diagnósticos, os critérios exigem um número mínimo de sintomas de uma lista maior, o que permite combinações diferentes. Fried e Nesse (2015) examinaram isso com dados de 3.703 pacientes ambulatoriais com depressão do estudo STAR*D e encontraram 1.030 perfis de sintomas distintos. Cerca de metade desses perfis (48,6%) pertencia a uma única pessoa, e o perfil mais comum aparecia em apenas 1,8% dos pacientes. Controlar a gravidade da depressão não reduziu essa heterogeneidade. Os autores sugerem que a análise de sintomas individuais e de suas relações traria informações que somas de pontos não captam. Há limitações: os sintomas foram dicotomizados, e muitos participantes relataram condições médicas cujos medicamentos prescritos podem ter afetado a apresentação dos sintomas.
Quatro razões para os planos serem diferentes
- Os sintomas dominantes são outros. Quem tem insônia e agitação pode precisar de um foco diferente de quem tem lentidão e perda de interesse.
- Os processos que mantêm o problema são outros. Para um, o centro pode ser a ruminação; para outro, a esquiva; para um terceiro, a dificuldade de tolerar desconforto. Nolen-Hoeksema e Watkins (2011) mostram que um mesmo fator transdiagnóstico pode levar a quadros diferentes em pessoas diferentes, o que é chamado de multifinalidade. É razoável supor que o inverso também ocorra: um mesmo quadro pode ser sustentado por mecanismos diversos. Veja o que mantém o sofrimento psicológico.
- O contexto é outro. Trabalho, relações, saúde, rede de apoio, tempo disponível e recursos mudam o que é viável e o que é prioritário (veja rotina, sono e relações na terapia).
- Os objetivos e as preferências são outros. O que a pessoa quer recuperar ou alcançar orienta o plano. A prática baseada em evidências em psicologia considera, além da pesquisa e da experiência clínica, as características, a cultura e as preferências do paciente (APA, 2006).
Um exemplo hipotético, lado a lado
| Aspecto | Pessoa A | Pessoa B |
|---|---|---|
| Diagnóstico | Depressão | Depressão |
| Sintomas dominantes | Insônia, inquietação, culpa | Sono excessivo, lentidão, perda de interesse |
| Processo que mantém | Ruminação à noite | Retraimento e inatividade |
| Contexto | Sobrecarga no trabalho | Isolamento após mudança de cidade |
| Foco inicial possível | Pensamento repetitivo e rotina de sono | Retomada gradual de atividades e de contatos |
Esse quadro é ilustrativo, e não um protocolo. A decisão sobre o que fazer primeiro depende da formulação de cada caso, da avaliação de risco e, quando indicado, da avaliação médica.
O que costuma ser perguntado além do diagnóstico
Quando a individualidade do caso é levada a sério, a conversa vai além de "quais sintomas você tem". Costuma incluir quando e como o problema começou e o que mudou desde então, o que piora e o que alivia, o que a pessoa faz quando o sintoma aparece, como estão o sono, o trabalho, as relações e a saúde, que tratamentos já foram tentados e o que aconteceu, e o que ela espera da terapia. Também importa saber o que a pessoa gostaria de voltar a fazer ou de conseguir fazer pela primeira vez. As respostas alimentam a compreensão do caso, que é revista ao longo do tratamento. Para quem está começando, vale conhecer o que acontece na primeira sessão de terapia.
O que isso não significa
Não significa que o diagnóstico seja inútil: ele segue importante, inclusive para indicar a necessidade de tratamento médico em quadros em que isso faz parte do cuidado. Também não significa que cada terapia seja improvisada. A TCC, por exemplo, tem evidência sólida para diversos problemas, conforme uma revisão de 106 metanálises (Hofmann e colaboradores, 2012), e esses protocolos são ponto de partida valioso. O que se ajusta é a escolha, a ordem e o ritmo das intervenções, como se discute em personalizar o tratamento psicológico.
Hofmann e Hayes (2019) argumentam que a ciência clínica está caminhando para modelos que identificam processos modificáveis e para abordagens mais individualizadas. É uma proposta em desenvolvimento, e não um consenso. Leia também terapia baseada em processos e terapias transdiagnósticas.
Em relação a medicamentos, qualquer decisão sobre iniciar, trocar ou interromper cabe ao médico, que também considera o conjunto de sintomas, o histórico e outros fatores individuais. Se você tem dúvidas sobre quem procurar, veja psicólogo, psiquiatra ou neuropsicólogo.
Quando a dúvida é sobre outras causas
Às vezes, o motivo de o tratamento não "encaixar" é que há outra explicação em jogo, como dificuldades de atenção, de memória ou de funções executivas. Nesses casos, a avaliação neuropsicológica pode ajudar a descrever o perfil cognitivo e a orientar estratégias, sem ser obrigatória para um diagnóstico e sem substituir a avaliação clínica ou médica. Para o caso específico de atenção e ansiedade, veja TDAH ou ansiedade: como diferenciar.
Quando o seu caso parece diferente
Se você já ouviu "isso funcionou para fulano, com o mesmo diagnóstico que o seu" e sentiu que não era bem o seu caso, vale conversar com o profissional sobre o que, especificamente, mantém o seu sofrimento e sobre o que você gostaria de mudar primeiro. Essa compreensão se constrói e se testa ao longo das sessões.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
Perguntas frequentes
Se o diagnóstico é o mesmo, por que o tratamento de um amigo foi diferente do meu?
Porque o diagnóstico agrupa pessoas com combinações de sintomas, histórias, contextos e objetivos diferentes. Um estudo com 3.703 pacientes com depressão encontrou 1.030 perfis distintos de sintomas. O que ajuda uma pessoa pode não ser o foco ideal para outra, e o psicólogo ajusta alvo, ritmo e técnicas ao que mantém o sofrimento em cada caso.
Isso quer dizer que o diagnóstico não importa?
Importa, sim. O diagnóstico organiza a comunicação entre profissionais, orienta a escolha de métodos e sinaliza quando é preciso avaliação médica. O que se defende é que ele seja ponto de partida, e não de chegada: além do nome do quadro, é útil entender o que mantém o problema, como a pessoa vive e o que ela deseja mudar.
E se o tratamento não estiver funcionando para mim?
Vale levar a questão ao profissional, que pode rever a compreensão do caso e ajustar as estratégias. Às vezes falta um fator de manutenção ainda não identificado, ou o ritmo está inadequado. Em outros casos, é preciso considerar outras causas ou complementar o cuidado. O tema é desenvolvido no texto sobre revisar hipóteses e estratégias na terapia.
Medicamentos também mudam de pessoa para pessoa?
Sim, e a decisão sobre iniciar, trocar ou interromper qualquer medicamento deve ser tomada com o médico, que considera sintomas, histórico, outras condições de saúde e fatores individuais. O psicólogo não orienta sobre medicação, mas pode trabalhar em conjunto com o médico e ajudar a pessoa a levar dúvidas e observações para a consulta.
Tratamento individualizado é menos científico?
Não. A prática baseada em evidências em psicologia integra a melhor pesquisa disponível, a experiência clínica e as características e preferências do paciente. Individualizar significa usar métodos com respaldo e ajustá-los ao caso, e não abandonar a ciência. O que ainda se estuda é quais formas de individualização realmente melhoram os resultados.
Referências
- PubMed: Depression is not a consistent syndrome: An investigation of unique symptom patterns in the STAR*D study (Fried e Nesse, Journal of Affective Disorders, 2015)
- PubMed: A Heuristic for Developing Transdiagnostic Models of Psychopathology: Explaining Multifinality and Divergent Trajectories (Nolen-Hoeksema e Watkins, Perspectives on Psychological Science, 2011)
- PubMed: Evidence-based practice in psychology (APA Presidential Task Force on Evidence-Based Practice, American Psychologist, 2006)
- PubMed: The Future of Intervention Science: Process-Based Therapy (Hofmann e Hayes, Clinical Psychological Science, 2019)
- PubMed: The Efficacy of Cognitive Behavioral Therapy: A Review of Meta-analyses (Hofmann e colaboradores, Cognitive Therapy and Research, 2012)




